Porquê um Blogue? (III)
Por causa da "combustão ser total" e instantânea (como diz o MEC).
E porque é mais fácil de esconder do que o caderno de capa preta.
Porquê um Blogue? (II)
Porque já não tenho moradas para onde enviar cartas.
Porquê um Blogue? (I)
Há já algum tempo que sentia necessidade de voltar a escrever. Para ser completamente honesto o que eu sabia era que necessitava de voltar a ler.
Tento recordar-me. Escrever para quê?
Escreve-se em primeiro lugar à procura de quem nos leia.
(Não consigo deixar de recordar a frase do Martin Amis: "Os escritores são como as putas: querem ser pagos, querem ser amados e têm a nostalgia da respeitabilidade..." - acho que era mais ou menos assim...)
Mas eu não sou um escritor.
A maior parte do que escrevi foi o que me sobrou da leitura.
Porque escrevo então agora antes dos livros que hei-de ler?

MyLifeBits: Nothing is better than the real thing.
A vida não é (completamente) digitalisável. Aceito que os scanners tenham uma neutralidade que a escrita não tem. Porque a escrita se deixa sempre contaminar por alguma ficção (mesmo que inconsciente).
Mas não se trata só de uma questão de honestidade rigorosa das máquinas, nem sequer da disponibilidade de terabytes de "espaço-tempo" virtuais. Nem mesmo da "sensibilidade" das máquinas digitalizadoras (os dpis dos scanners de imagem, por exemplo).
A ciência (Heisenberg, o principio da incerteza) e a Literatura (Borges, Bioy Casares, por exemplo) sabem que o virtual, a representação do real não pode atingir o próprio real. Porque há um momento em que o virtual se aproxima demasiado do real e é engolido.
LIVRO (tentativa de leitura)
Passo as mãos pela capa de um livro. Gostava de escrever que as mãos recordam, mas não é verdade.
Leio: "Canto Primeiro".
Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açucar.
A advertência faz sobrepôr a cautela ao desejo de ler. Os livros são objectos perigosos.
SEXTO SENTIDO:

Uma amiga (que desconhece a existência deste blogue) escreveu-me esta mensagem.
É uma sorte termos amigos assim.


Obsessão: sessão no rio Ob.

(...)

A arte educa. É por isso que os escritores devem conhecer a vida. Proust é o
melhor exemplo. Não sabia nada da vida. Sequestrou-se voluntariamente;
fechou-se num quarto forrado a cortiça. Caso extremo. Não se pode escrever
em quartos de cortiça. Não se ouve nada.

(...)

Um dia Jo perguntou-lhe: " Tio, como é uma girafa? "
O tio não fazia a mínima ideia da aparência deste animal. Desde os vinte
anos que não se interessava rigorosamente por mais nada a não ser a sua
grande obra, e isto não lhe permitia sair das quatro paredes do seu quarto.

O ELEFANTE, mrozeck


Se te quiseres contextualizar ( palavra estranha fora da documentação
relacionada com o ensino! ), tens mesmo que ler o livro porque eu não te
conto o resto das histórias.


NÃO LER (III):
Percorro a estante devagar. Um livro que me chame.
Se não tivéssemos lido livros, teríamos sido mais felizes?
NÃO LER (II):
Escrevo à procura de uma boa razão para ler?
MOTOR DE BUSCA (II)
Estava à procura de uma velha amiga no Google. Não encontrei nada.
Acabei por ir parar a uma página que é agora o que resta do DN Jovem. Fiquei muito deprimido.

NÃO LER
Há cinco anos que não leio livros. (Eu sei; é um bocadinho mais grave do que comer pipocas na sala de cinema...)
Ainda não percebi bem porque que é que isso aconteceu.
Entender esse processo é uma das tarefas que me proponho cumprir neste blogue.

Borges dizia que a leitura é uma actividade mais nobre que a escrita...

Escrevo.

Primeiro com as palavras dos outros: "tenho muitos, muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida".
MOTOR DE BUSCA
Escrevo. As palavras à procura.

Arquivo