Começar de novo.
Nunca se começa "de novo".
Existem muito poucas coisas mais sedutoras do que a ideia de "começar de novo".
Infelizmente trata-se de uma espécie de armadilha.
Recomeçamos, na melhor das hipóteses, sobre aquilo que foram os nossos erros. Com mais experiência e sabedoria. ("Falhar outra vez; falhar melhor").
Mas também inevitavelmente com as limitações, as cicatrizes, o cansaço, o pó dos caminhos.
Incêndios (I)
Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: - Cobardes, que nos deram um planeta sujo!
- José Gomes Ferreira
Metablogar
De que nos servem as palavras que temos nas mãos?
Há (ainda) alguma coisa que mereça ser dita?
Porque é que não guardamos estas palavras embrulhadas em papel? Como sempre fizémos.

Passo duas ou três horas a ler blogues.

Li no monólogo: meço o tempo que invisto em qualquer coisa, pelo que aprendo com ela.

O problema reside na dificuldade da percepção. Quanto tempo demoramos a perceber que aprendemos qualquer coisa?
Como é (quando) que sabemos que aprendemos?
A duração.
- E agora perdes finalmente por completo a linha. Regressa ao livro, à escrita, à leitura. Aos textos primitivos onde é, por exemplo, dito: "Deixa ressoar a palavra, sê-lhe fiel - seja o momento favorável ou desfavorável." Já viveste um dia conseguido? Através do qual, o instante conseguido, a vida conseguida, talvez até a eternidade conseguida se reuniriam de uma vez por todas?
Peter Handke, in Ensaio sobre o Dia Conseguido
Escrever.
Não ter vontade de escrever foi coisa que nunca me perturbou.
De todas as teorias acerca da pulsão da escrita a que sempre mais me agradou foi a de que escrevemos porque queremos ser amados.
As pessoas verdadeiramente felizes não escreveriam, portanto.
Pensava eu que para escrever era preciso ter fome.
Não acredito em poetas saciados.

Ler.
Volta devagar, o desejo de ler. Não sabia que ia ser assim.
Quando percebi que já não conseguia ler pensei que se tratava apenas de um parentesis breve.
Afinal eu achava que não se sobrevive sem as palavras. Escritas, o barulho lento das páginas, o cheiro da tinta.
Mas sobrevivemos a tudo.
A Phala - Número Cem
Para voltar a ler um texto belíssimo de José Tolentino Mendonça acerca da herança do poder das histórias; que é (também) uma homenagem a Manuel Hermínio Monteiro.

(...) Há histórias que nos pintaram o rosto com terra amassada, vermelha, amarela, negra e iniciaram-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento dos sonhos. Há histórias que nos conduziram ao centro impenetrável de bosques, aos segredos da penumbra de um templo, à geografia de cidades, ao alarido dos mercados e à hesitação que a sabedoria por vezes dissolve, por vezes amplia.
Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e assim primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltaram as palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem fossem palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia, a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão belo e tão perigoso.
(...) Seja o poder das histórias, essa torrente imemorial, secreta e profusa, esse sopro íntimo que arranca do mundo, da extrema fragilidade do mundo, o encantado desenho de uma música interminável, a dizer o amigo que atava as grandes histórias, as mais maravilhosas, em livros (sem os quais não seríamos os mesmos, ou não conseguiríamos talvez já viver), pela paixão, pela simples paixão, de encher a nossa vida desses ramos perfumados e bravios!

O Navio de Espelhos, Livraria.
Saúdo a imprudência, a coragem, a provocação.
Bem hajam.

Repoduzo a seguir o "primeiro pretexto" que me separa agora a página par da página ímpar:

a urgência de imprimir a palavra ler na combustão dos minutos poesia mergulhar no livro tão inevitavelmente a fundo e sair mesmo do outro lado numa espécie de porta música poucos têm o desejo de se revoltar nos nossos dias teatro o embarque é inadiável e hoje é o sonho que nos sonha a pintura espaço para quem ouse dança a criação consiste justamente em lutar para manter o sentido das palavras literatura as palavras têm que nascer de novo
O Estado da Blogosfera (II)
Os weblogs são ferramentas tecnicamente muito mais poderosas do que um newsgroup.
As ferramentas de edição/publicação permitem gerir os conteúdos de uma forma ao mesmo tempo imediata, mas já com algum grau de sofisticação.
Por outro lado a virtualização permite a explosão do espaço disponível para limites antes considerados improváveis.
Esta "coisa" cresce muito rapidamente e uma das reacções naturais e instintivas é linkar.
Linkar é uma palavra maravilhosa. É quando sentimos que estamos a perder o controle, que vamos cair no vazio inexorável, que nos surge este desejo de linkar.
Os links são um movimento do instinto que mantém a blogosfera a um nanosegundo da desintegração.
São as linhas visíveis que estabelecem a continuidade espaço-tempo da blogosfera.


(Existem evidentemente Weblogs que não têm links, sendo ainda assim bastante consistentes, sólidos. São persistentes, atentos e sobretudo parece que são lidos. Ganharam a tal massa crítica; têm poder.
Suspeito que estes são também os que têm um link mais forte com o chamado "mundo exterior" - a imprensa, o meio académico.)
O Estado da Blogosfera (I)
Devo dizer que acho muito positiva a exposição democrática a que a blogosfera está a ser submetida.
Há cerca de 10 anos discutíamos a mesma coisa relativamente à internet e à soc.culture.portuguese (alguém se lembra?).
Algumas pessoas defendiam que o acesso generalizado à Internet seria o fim da Internet. Recordo-me por exemplo de ver (ler) pessoas por quem tinha algum respeito intelectual escreverem que o acesso à Internet (e em particular ao soc.culture.portuguese) devia ser vedado aos estudantes "undergrad"...
Havia efectivamente um problema de relação ruído/sinal. A tarefa do leitor estava cada vez mais dificultada pela explosão de posts, de vozes novas e múltiplas. A esmagadora maioria das vozes novas eram lixo, ruído; mas isto é apenas a minha opinião.
O que eu leio como ruído pode ser sinal límpido e cristalino para o meu vizinho do lado. É isto que a democracia tem de maravilhoso.
Herman SIC
Há muito tempo que deixei de ver o Herman. Sobretudo porque se tornou inofensivo.
O "custo" de se apanhar com cenas tristes e patéticas é muito elevado para o benefício de algum humor de qualidade.
O que sobra é demasiadas vezes a ignorância e o mau gosto. É pena.
Parece que mais uma vez se foi longe de mais na direcção errada.
Lula
Pode ser por ingenuidade, mas Luis Inácio Lula da Silva comove-me. Ouço na TSF aquele pedaço de discurso "... se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida". Não posso deixar de me comover com a simplicidade, com a franqueza destas palavras. E não posso ouvir calado alguns "comentadores" da nossa praça que insistem em fazer passar subliminarmente esta ideia peregrina de que a esperança numa sociedade mais justa é um sinal de mediocridade intelectual.
textos sobre o Fome Zero
4 da manhã.
Recomeço pelo princípio. Homero Odisseia. Se não tivesse ainda a memória de Borges e Calvino talvez não soubesse. Não teria esta certeza de ser aqui que se começa a ler.
Não escrever.
Ainda sobre o post do José Mário Silva. Como eu admiro esta vontade de escrever. Comove-me.
Eu, se pudesse, lia.
A FRASE DO DIA (de ontem):
... já ninguém consegue acompanhar, com a devida atenção , tudo o que se passa de importante neste mundo (a blogosfera) em que a Terra Incognita cresce mais depressa que a nossa capacidade de desenhar novos mapas. Eu tentei pôr-me à la page (horas a fio em frente ao ecrã) e não consegui. Pior, arrependi-me da tentativa inglória. Porque neste momento, há que dizê-lo, ou se lê ou se escreve. E eu quero escrever.
José Mário Silva em blog-de-esquerda
LORELEI
It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen
Sylvia Plath
Os Blogues que eu leio
estão listados aqui ao lado.
É uma lista provisória. (Talvez seja mais correcto chamar-lhe dinâmica.)
São referências. A minha geração gosta muito de referências e citações.
Reparo que somos muito criticados por isso.
Não entendem que quando citamos o fazemos por respeito e admiração.
I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart;
I am trying to bribe you with uncertainty , with danger, with defeat

Borges, Two English Poems
-.-
;%

k
UNCERTAIN SMILE:
Estive a ler cartas antigas.
Não me lembro de mim. Ainda não.
Li duas cartas da IAS e voltei a a fechar a caixa grande de madeira onde estão guardadas. Por pudor.
De repente era como se estivesse a ler a correspondência de outra pessoa.

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