nostalgia I
o café palácio vazio.
um pouco antes dos primeiros grupos começarem a chegar.
a solidão e a liberdade.
de nunca ter tido a minha "tribo".

esses últimos dias do ano ainda são aqueles em que me fazem mais falta os amigos.

um pouco como se o mundo fosse acabar e tivéssemos que partir em muitas naus diferentes. para longe.
destino incerto.

quem vem na minha nau?
não me deixes só na noite escura em que a nossa casa se transformou.

tenho frio.
escreves palavras que se apagam como quando se lêem sem leitores escreves devagar e esperas um pouco.
estas palavras só existirão na tua memória.

ninguém lê. verdadeiramente nada.

a memória inventada
quanto tempo demora a sair da pele o sabor o cheiro a solidão dos dias horas que passamos entre as páginas de um livro?
"I shall not be alone, in the beginning. I am of course alone. Alone. That is soon said. Things have to be soon said. And how can one be sure, in such darkness?" - Beckett, The Unnamable
a existência da escrita
onde estamos quando não escrevemos?
do estado da arte e do lamento dos artistas
"Seria cruel recusar uma ponta de piedade humana aos milhares de indivíduos atingidos por esta situação de necessidade. Se, ainda há pouco, um artista apreciado estava habituado a receber das classes confortavelmente despreocupadas da nossa próspera sociedade um salário de ouro e podia aspirar a uma vida igualmente despreocupada e confortável em troca dos seus produtos de agrado público, há-se ser-lhe difícil ver-se hoje em dia repelido por mãos fechadas e receosas e ficar dependente das obrigações de um salário. Partilha assim por inteiro do destino do trabalhador manual que noutro tempo podia ocupar a habilidade das mãos na criação de mil e uma comodidades para o agrado dos ricos e que hoje, ocioso, tem que as apertar contra o estômago vazio. Tem, portanto, o direito de se lamentar; porque aos que sofrem deu a natureza a possibilidade das lágrimas. Mas o que já pode ser posto em causa é o direito de este artista se confundir com a própria arte, de lamentar a sua situação como a situação geral da arte (...) E antes de decidirmos sobre esta questão, haveria de inquirir, pelo menos junto daqueles artistas em relação aos quais se pode comprovar que, não só em palavras, mas também em actos, manifestaram o seu amor puro pela arte e se entregaram a uma prática da arte por si mesma, se não estavam sujeitos a privações no tempo em que os outros andavam satisfeitos."
Richard Wagner, 1849
Já não escrevemos, porque estamos quase sempre cansados, exaustos, à beira do limite dos corpos. Já não escrevemos talvez porque o tempo nos ensinou que afinal as palavras não aproximam e os dias vão ficando mais curtos como se fosse sempre Inverno sem nunca se estar a meio do Inverno. Já não sei dizer isto.
Leni Riefenstahl
Confesso humildemente a minha admiração pelo trabalho desta senhora.
Os filmes de Leni Riefenstahl sempre me deixaram uma espécie de desconforto; talvez por causa da tensão entre o prazer puro das imagens, dos planos, dos movimentos da câmara e a razão da consciência política, das ideias subjacentes às imagens.
Otto e mezzo
É o meu filme preferido de Fellini. Ao revisitá-lo agora recordo-me porquê. Devagar.
A única memória consistente que tinha do filme era a da sequência final. Tinha-se apagado quase tudo à volta desta ideia resistente; de ser 8 1/2 o meu filme preferido de Fellini.
"O mundo já está cheio de imagens supérfluas"

Começar de novo.
Nunca se começa "de novo".
Existem muito poucas coisas mais sedutoras do que a ideia de "começar de novo".
Infelizmente trata-se de uma espécie de armadilha.
Recomeçamos, na melhor das hipóteses, sobre aquilo que foram os nossos erros. Com mais experiência e sabedoria. ("Falhar outra vez; falhar melhor").
Mas também inevitavelmente com as limitações, as cicatrizes, o cansaço, o pó dos caminhos.
Incêndios (I)
Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: - Cobardes, que nos deram um planeta sujo!
- José Gomes Ferreira
Metablogar
De que nos servem as palavras que temos nas mãos?
Há (ainda) alguma coisa que mereça ser dita?
Porque é que não guardamos estas palavras embrulhadas em papel? Como sempre fizémos.

Passo duas ou três horas a ler blogues.

Li no monólogo: meço o tempo que invisto em qualquer coisa, pelo que aprendo com ela.

O problema reside na dificuldade da percepção. Quanto tempo demoramos a perceber que aprendemos qualquer coisa?
Como é (quando) que sabemos que aprendemos?
A duração.
- E agora perdes finalmente por completo a linha. Regressa ao livro, à escrita, à leitura. Aos textos primitivos onde é, por exemplo, dito: "Deixa ressoar a palavra, sê-lhe fiel - seja o momento favorável ou desfavorável." Já viveste um dia conseguido? Através do qual, o instante conseguido, a vida conseguida, talvez até a eternidade conseguida se reuniriam de uma vez por todas?
Peter Handke, in Ensaio sobre o Dia Conseguido
Escrever.
Não ter vontade de escrever foi coisa que nunca me perturbou.
De todas as teorias acerca da pulsão da escrita a que sempre mais me agradou foi a de que escrevemos porque queremos ser amados.
As pessoas verdadeiramente felizes não escreveriam, portanto.
Pensava eu que para escrever era preciso ter fome.
Não acredito em poetas saciados.

Ler.
Volta devagar, o desejo de ler. Não sabia que ia ser assim.
Quando percebi que já não conseguia ler pensei que se tratava apenas de um parentesis breve.
Afinal eu achava que não se sobrevive sem as palavras. Escritas, o barulho lento das páginas, o cheiro da tinta.
Mas sobrevivemos a tudo.
A Phala - Número Cem
Para voltar a ler um texto belíssimo de José Tolentino Mendonça acerca da herança do poder das histórias; que é (também) uma homenagem a Manuel Hermínio Monteiro.

(...) Há histórias que nos pintaram o rosto com terra amassada, vermelha, amarela, negra e iniciaram-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento dos sonhos. Há histórias que nos conduziram ao centro impenetrável de bosques, aos segredos da penumbra de um templo, à geografia de cidades, ao alarido dos mercados e à hesitação que a sabedoria por vezes dissolve, por vezes amplia.
Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e assim primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltaram as palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem fossem palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia, a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão belo e tão perigoso.
(...) Seja o poder das histórias, essa torrente imemorial, secreta e profusa, esse sopro íntimo que arranca do mundo, da extrema fragilidade do mundo, o encantado desenho de uma música interminável, a dizer o amigo que atava as grandes histórias, as mais maravilhosas, em livros (sem os quais não seríamos os mesmos, ou não conseguiríamos talvez já viver), pela paixão, pela simples paixão, de encher a nossa vida desses ramos perfumados e bravios!

O Navio de Espelhos, Livraria.
Saúdo a imprudência, a coragem, a provocação.
Bem hajam.

Repoduzo a seguir o "primeiro pretexto" que me separa agora a página par da página ímpar:

a urgência de imprimir a palavra ler na combustão dos minutos poesia mergulhar no livro tão inevitavelmente a fundo e sair mesmo do outro lado numa espécie de porta música poucos têm o desejo de se revoltar nos nossos dias teatro o embarque é inadiável e hoje é o sonho que nos sonha a pintura espaço para quem ouse dança a criação consiste justamente em lutar para manter o sentido das palavras literatura as palavras têm que nascer de novo
O Estado da Blogosfera (II)
Os weblogs são ferramentas tecnicamente muito mais poderosas do que um newsgroup.
As ferramentas de edição/publicação permitem gerir os conteúdos de uma forma ao mesmo tempo imediata, mas já com algum grau de sofisticação.
Por outro lado a virtualização permite a explosão do espaço disponível para limites antes considerados improváveis.
Esta "coisa" cresce muito rapidamente e uma das reacções naturais e instintivas é linkar.
Linkar é uma palavra maravilhosa. É quando sentimos que estamos a perder o controle, que vamos cair no vazio inexorável, que nos surge este desejo de linkar.
Os links são um movimento do instinto que mantém a blogosfera a um nanosegundo da desintegração.
São as linhas visíveis que estabelecem a continuidade espaço-tempo da blogosfera.


(Existem evidentemente Weblogs que não têm links, sendo ainda assim bastante consistentes, sólidos. São persistentes, atentos e sobretudo parece que são lidos. Ganharam a tal massa crítica; têm poder.
Suspeito que estes são também os que têm um link mais forte com o chamado "mundo exterior" - a imprensa, o meio académico.)
O Estado da Blogosfera (I)
Devo dizer que acho muito positiva a exposição democrática a que a blogosfera está a ser submetida.
Há cerca de 10 anos discutíamos a mesma coisa relativamente à internet e à soc.culture.portuguese (alguém se lembra?).
Algumas pessoas defendiam que o acesso generalizado à Internet seria o fim da Internet. Recordo-me por exemplo de ver (ler) pessoas por quem tinha algum respeito intelectual escreverem que o acesso à Internet (e em particular ao soc.culture.portuguese) devia ser vedado aos estudantes "undergrad"...
Havia efectivamente um problema de relação ruído/sinal. A tarefa do leitor estava cada vez mais dificultada pela explosão de posts, de vozes novas e múltiplas. A esmagadora maioria das vozes novas eram lixo, ruído; mas isto é apenas a minha opinião.
O que eu leio como ruído pode ser sinal límpido e cristalino para o meu vizinho do lado. É isto que a democracia tem de maravilhoso.
Herman SIC
Há muito tempo que deixei de ver o Herman. Sobretudo porque se tornou inofensivo.
O "custo" de se apanhar com cenas tristes e patéticas é muito elevado para o benefício de algum humor de qualidade.
O que sobra é demasiadas vezes a ignorância e o mau gosto. É pena.
Parece que mais uma vez se foi longe de mais na direcção errada.
Lula
Pode ser por ingenuidade, mas Luis Inácio Lula da Silva comove-me. Ouço na TSF aquele pedaço de discurso "... se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida". Não posso deixar de me comover com a simplicidade, com a franqueza destas palavras. E não posso ouvir calado alguns "comentadores" da nossa praça que insistem em fazer passar subliminarmente esta ideia peregrina de que a esperança numa sociedade mais justa é um sinal de mediocridade intelectual.
textos sobre o Fome Zero
4 da manhã.
Recomeço pelo princípio. Homero Odisseia. Se não tivesse ainda a memória de Borges e Calvino talvez não soubesse. Não teria esta certeza de ser aqui que se começa a ler.
Não escrever.
Ainda sobre o post do José Mário Silva. Como eu admiro esta vontade de escrever. Comove-me.
Eu, se pudesse, lia.
A FRASE DO DIA (de ontem):
... já ninguém consegue acompanhar, com a devida atenção , tudo o que se passa de importante neste mundo (a blogosfera) em que a Terra Incognita cresce mais depressa que a nossa capacidade de desenhar novos mapas. Eu tentei pôr-me à la page (horas a fio em frente ao ecrã) e não consegui. Pior, arrependi-me da tentativa inglória. Porque neste momento, há que dizê-lo, ou se lê ou se escreve. E eu quero escrever.
José Mário Silva em blog-de-esquerda
LORELEI
It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen
Sylvia Plath
Os Blogues que eu leio
estão listados aqui ao lado.
É uma lista provisória. (Talvez seja mais correcto chamar-lhe dinâmica.)
São referências. A minha geração gosta muito de referências e citações.
Reparo que somos muito criticados por isso.
Não entendem que quando citamos o fazemos por respeito e admiração.
I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart;
I am trying to bribe you with uncertainty , with danger, with defeat

Borges, Two English Poems
-.-
;%

k
UNCERTAIN SMILE:
Estive a ler cartas antigas.
Não me lembro de mim. Ainda não.
Li duas cartas da IAS e voltei a a fechar a caixa grande de madeira onde estão guardadas. Por pudor.
De repente era como se estivesse a ler a correspondência de outra pessoa.
Porquê um Blogue? (III)
Por causa da "combustão ser total" e instantânea (como diz o MEC).
E porque é mais fácil de esconder do que o caderno de capa preta.
Porquê um Blogue? (II)
Porque já não tenho moradas para onde enviar cartas.
Porquê um Blogue? (I)
Há já algum tempo que sentia necessidade de voltar a escrever. Para ser completamente honesto o que eu sabia era que necessitava de voltar a ler.
Tento recordar-me. Escrever para quê?
Escreve-se em primeiro lugar à procura de quem nos leia.
(Não consigo deixar de recordar a frase do Martin Amis: "Os escritores são como as putas: querem ser pagos, querem ser amados e têm a nostalgia da respeitabilidade..." - acho que era mais ou menos assim...)
Mas eu não sou um escritor.
A maior parte do que escrevi foi o que me sobrou da leitura.
Porque escrevo então agora antes dos livros que hei-de ler?

MyLifeBits: Nothing is better than the real thing.
A vida não é (completamente) digitalisável. Aceito que os scanners tenham uma neutralidade que a escrita não tem. Porque a escrita se deixa sempre contaminar por alguma ficção (mesmo que inconsciente).
Mas não se trata só de uma questão de honestidade rigorosa das máquinas, nem sequer da disponibilidade de terabytes de "espaço-tempo" virtuais. Nem mesmo da "sensibilidade" das máquinas digitalizadoras (os dpis dos scanners de imagem, por exemplo).
A ciência (Heisenberg, o principio da incerteza) e a Literatura (Borges, Bioy Casares, por exemplo) sabem que o virtual, a representação do real não pode atingir o próprio real. Porque há um momento em que o virtual se aproxima demasiado do real e é engolido.
LIVRO (tentativa de leitura)
Passo as mãos pela capa de um livro. Gostava de escrever que as mãos recordam, mas não é verdade.
Leio: "Canto Primeiro".
Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açucar.
A advertência faz sobrepôr a cautela ao desejo de ler. Os livros são objectos perigosos.
SEXTO SENTIDO:

Uma amiga (que desconhece a existência deste blogue) escreveu-me esta mensagem.
É uma sorte termos amigos assim.


Obsessão: sessão no rio Ob.

(...)

A arte educa. É por isso que os escritores devem conhecer a vida. Proust é o
melhor exemplo. Não sabia nada da vida. Sequestrou-se voluntariamente;
fechou-se num quarto forrado a cortiça. Caso extremo. Não se pode escrever
em quartos de cortiça. Não se ouve nada.

(...)

Um dia Jo perguntou-lhe: " Tio, como é uma girafa? "
O tio não fazia a mínima ideia da aparência deste animal. Desde os vinte
anos que não se interessava rigorosamente por mais nada a não ser a sua
grande obra, e isto não lhe permitia sair das quatro paredes do seu quarto.

O ELEFANTE, mrozeck


Se te quiseres contextualizar ( palavra estranha fora da documentação
relacionada com o ensino! ), tens mesmo que ler o livro porque eu não te
conto o resto das histórias.


NÃO LER (III):
Percorro a estante devagar. Um livro que me chame.
Se não tivéssemos lido livros, teríamos sido mais felizes?
NÃO LER (II):
Escrevo à procura de uma boa razão para ler?
MOTOR DE BUSCA (II)
Estava à procura de uma velha amiga no Google. Não encontrei nada.
Acabei por ir parar a uma página que é agora o que resta do DN Jovem. Fiquei muito deprimido.

NÃO LER
Há cinco anos que não leio livros. (Eu sei; é um bocadinho mais grave do que comer pipocas na sala de cinema...)
Ainda não percebi bem porque que é que isso aconteceu.
Entender esse processo é uma das tarefas que me proponho cumprir neste blogue.

Borges dizia que a leitura é uma actividade mais nobre que a escrita...

Escrevo.

Primeiro com as palavras dos outros: "tenho muitos, muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida".
MOTOR DE BUSCA
Escrevo. As palavras à procura.

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