memória revisitada
recupero os cadernos de capas pretas. do tempo em que escrever era um exercício quase diário.
as mãos à tua procura. apercebo-me da possibilidade dessa explicação: a escrita acaba nesse lugar/tempo em que te encontro. ou, mais precisamente, em que aceito.

a vontade de escrever extingue-se no preciso instante em que percebemos que já não existe mais nada a procurar?
está aqui tudo. completo. escrever para quê?

então para escrever é preciso que estejamos um pouco insatisfeitos, infelizes?
é preciso perceber que ainda temos fome?

fome de quê?

acerca do voto em branco

ao contrário da cobardia da abstenção (que tecnicamente não passa de um voto no resultado), o voto em branco é a expressão mais clara contra todas as opções disponíveis.

e acerca disto vou um pouco mais longe que o Saramago.
eu não costumo votar em branco, mas acho que o voto em branco é um voto expresso. que devia estar democraticamente representado na assembleia.
cadeiras vazias para os votos em branco!
para que os políticos se confrontem todos os dias com essa ausência.

porque eu acredito no poder da ausência. activa.
ouço repetidamente
just another song
on a day like this

tinha perdido estas canções há alguns anos.
agora ouço o CD e é bom saber que a memória não traiu.
letters from lovers and other strangers
mortuary blues some are young and some are old but they are all too young for to be that cold hazy memories another sad day and it's still raining on a day like this with one embrace you gave this place your name and face bitter kisses you offered me bitter kisses and sour wine behind closed doors the face you show tells nothing no more like strangers we met like a stranger you left just another song maybe the day will come and I'm gone but baby stay in my mind like this song blue eyed angel when skies are tumbling down crawl under my skin this is the moment to begin new day no more tears to cry even though there are reasons why a smile can change your way and laughter makes your day kick up the fire become immortal before you die dark friend blue deep when the day is gone in a fight with the sun it's your kingdom hawaii song all moments we had there's not one I regret just for you just for you
four star five
ainda as rotinas: lista de intenções
inventariar as rotinas.
as rotinas mais perigosas são muitas vezes as que estão escondidas nessa coisa espessa em que se transformaram os dias.
apagar as rotinas ineficientes que ocupam demasiado tempo.
montar rotinas "úteis" contra as rotinas "preguiçosas".
regressar às rotinas que libertam.


rotinas que libertam
como saber o lugar ou o momento preciso em que a rotina deixa de ser uma ferramenta ao serviço da liberdade?
eu costumava ser um defensor convicto das rotinas.
colocar uma rotina em funcionamento servia para me libertar para coisas mais interessantes, mais desorganizadas, criativas, excitantes, etc.
agora, alguns anos depois, já não tenho tanto essa certeza.
uma rotina também é um processo perigoso.
e além disso cada rotina que colocamos em funcionamento também vai consumindo um pouco mais de "processamento central".
as rotinas vão de forma insidiosa ocupando a nossa disponibilidade.
quando é que a rotina se transformou numa rotina "má"?
não sei muito bem, mas parece-me que terá algo a ver com a preguiça.
com a relação estranha entre a preguiça e a inteligência. a inteligência a colocar as novas rotinas ao serviço da preguiça.
esta é a verdadeira linha do perigo.

o pêndulo
"nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade"
ou
"a liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de forma diferente da nossa"
(cito de memória)
eu quero ser hespanhol
ouço zapatero e sinto uma espécie de inveja dos outros povos da península.
nostalgia I
o café palácio vazio.
um pouco antes dos primeiros grupos começarem a chegar.
a solidão e a liberdade.
de nunca ter tido a minha "tribo".

esses últimos dias do ano ainda são aqueles em que me fazem mais falta os amigos.

um pouco como se o mundo fosse acabar e tivéssemos que partir em muitas naus diferentes. para longe.
destino incerto.

quem vem na minha nau?
não me deixes só na noite escura em que a nossa casa se transformou.

tenho frio.
escreves palavras que se apagam como quando se lêem sem leitores escreves devagar e esperas um pouco.
estas palavras só existirão na tua memória.

ninguém lê. verdadeiramente nada.

a memória inventada
quanto tempo demora a sair da pele o sabor o cheiro a solidão dos dias horas que passamos entre as páginas de um livro?
"I shall not be alone, in the beginning. I am of course alone. Alone. That is soon said. Things have to be soon said. And how can one be sure, in such darkness?" - Beckett, The Unnamable
a existência da escrita
onde estamos quando não escrevemos?
do estado da arte e do lamento dos artistas
"Seria cruel recusar uma ponta de piedade humana aos milhares de indivíduos atingidos por esta situação de necessidade. Se, ainda há pouco, um artista apreciado estava habituado a receber das classes confortavelmente despreocupadas da nossa próspera sociedade um salário de ouro e podia aspirar a uma vida igualmente despreocupada e confortável em troca dos seus produtos de agrado público, há-se ser-lhe difícil ver-se hoje em dia repelido por mãos fechadas e receosas e ficar dependente das obrigações de um salário. Partilha assim por inteiro do destino do trabalhador manual que noutro tempo podia ocupar a habilidade das mãos na criação de mil e uma comodidades para o agrado dos ricos e que hoje, ocioso, tem que as apertar contra o estômago vazio. Tem, portanto, o direito de se lamentar; porque aos que sofrem deu a natureza a possibilidade das lágrimas. Mas o que já pode ser posto em causa é o direito de este artista se confundir com a própria arte, de lamentar a sua situação como a situação geral da arte (...) E antes de decidirmos sobre esta questão, haveria de inquirir, pelo menos junto daqueles artistas em relação aos quais se pode comprovar que, não só em palavras, mas também em actos, manifestaram o seu amor puro pela arte e se entregaram a uma prática da arte por si mesma, se não estavam sujeitos a privações no tempo em que os outros andavam satisfeitos."
Richard Wagner, 1849
Já não escrevemos, porque estamos quase sempre cansados, exaustos, à beira do limite dos corpos. Já não escrevemos talvez porque o tempo nos ensinou que afinal as palavras não aproximam e os dias vão ficando mais curtos como se fosse sempre Inverno sem nunca se estar a meio do Inverno. Já não sei dizer isto.
Leni Riefenstahl
Confesso humildemente a minha admiração pelo trabalho desta senhora.
Os filmes de Leni Riefenstahl sempre me deixaram uma espécie de desconforto; talvez por causa da tensão entre o prazer puro das imagens, dos planos, dos movimentos da câmara e a razão da consciência política, das ideias subjacentes às imagens.
Otto e mezzo
É o meu filme preferido de Fellini. Ao revisitá-lo agora recordo-me porquê. Devagar.
A única memória consistente que tinha do filme era a da sequência final. Tinha-se apagado quase tudo à volta desta ideia resistente; de ser 8 1/2 o meu filme preferido de Fellini.
"O mundo já está cheio de imagens supérfluas"

Começar de novo.
Nunca se começa "de novo".
Existem muito poucas coisas mais sedutoras do que a ideia de "começar de novo".
Infelizmente trata-se de uma espécie de armadilha.
Recomeçamos, na melhor das hipóteses, sobre aquilo que foram os nossos erros. Com mais experiência e sabedoria. ("Falhar outra vez; falhar melhor").
Mas também inevitavelmente com as limitações, as cicatrizes, o cansaço, o pó dos caminhos.
Incêndios (I)
Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: - Cobardes, que nos deram um planeta sujo!
- José Gomes Ferreira

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