Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque
http://www.bach2cage.com/

e já agora aproveitem e passem também por aqui

insónia e cafeína

a insónia é uma boa amiga que inventa o tempo disponível para os ócios mais antigos.
o pior é suportar o peso dos dias.
regressar

O tempo do regresso não é "cronometrável". Há aqui uma espessura que nos escapa.
E depois existe o problema de nunca se regressar ao mesmo lugar.
leio os "cadernos de capas pretas" do tempo em que a escrita era um exercício quase diário.
citações, aforismos, recortes, comentários soltos, fragmentos.
falar com as palavras dos outros é sempre menos arriscado.

acho que disfruto pela primeira vez do jogo do blog. persigo o leitor no preciso instante em que lê. acrescento imagens. linko. faço o claim. compro acções.
não era nada disto que eu queria. mas à irritação desta constatação sucede-se o reconhecimento de que de certa forma este jogo me reaproxima da escrita...

escrever é uma actividade sempre posterior à leitura.
tento chegar ao desejo de ler por aqui.

Regresso (é a palavra certa) ao meu Ulisses.
Há tanto tempo que a insónia tinha deixado de ser uma amiga leal.

Tirei os sapatos, pois eles enterravam-se sistematicamente na areia. Agradava-me a ideia de os deixar ali pousados no tronco, apontando para o mar como uma espécie de bússola da alma, depois de morrer.
- Sylvia Plath

Que distância haverá entre a literatura e o sofrimento? será ela função da natureza do sofrimento, da sua intensidade ou do espaço que os separa? A obra literária estará mais próxima do sofrimento que causa o reflexo do fogo ou aquele que provém do próprio fogo?


Stig Dagerman, in Outono Alemão

- Tive um mau dia. Tive de subverter os meus princípios e bajular um idiota.
- A televisão torna estes sacrifícios diários possíveis.
- Enfraquece o âmago do meu ser.


in "Trust", Hal Hartley

Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.

Olhei apenas para as águas do rio (porque
me senti tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.


- João Miguel Fernandes Jorge
como seria bom conseguir viver de acordo com as sábias palavras do poeta.




Rest before labour.
- William Blake

cadernos 04/94

"... ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se mantém há gerações."
Maria Gabriela Llansol, Amar Um Cão
os cadernos do tempo em que escrevia

estão aqui. estranha arqueologia.
esta leitura fragmentada e a forma como se vai misturando com a memória.

as ideias continuam válidas oito dez anos depois. a escrita que transborda da leitura. ler primeiro. escrevemos para de uma certa forma prolongar a leitura. escrevemos para ser amados.
cadernos 1/94

"Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros são as tentativas mais puras do Universo.
Olha-os, e não os mates.

(...) a escuridão de escrever permite apanhar, no auge, os frutos da claridade. O modo faz o percurso fora do percurso, margina-o de um sabor estranho mas que dá à contemplação a parte mais veloz do voo. Faço como tu.

(...) Eu ando a pé: penso com maior velocidade."

Maria Gabriela Llansol, O Raio sobre o Lápis
cadernos 1/94

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Hélder
cadernos 01/96

uma carta que regresse devagar à morada das tuas mãos. não escrevo há muito tempo. e é assim uma espécie de não-existir; como se não fosse possível medir os dias sem a escala das palavras. as palavras como marcas, sinais, pontos de referência no deserto.
voltava para casa. um pouco triste por causa da morte da Duras. sobreviver: tudo na Duras se pode condensar nesta palavra. sobreviver a tudo, até ao amor. como em moderato cantabile. acho que gostava que a Duras tivesse morrido de amor.
não consigo contornar a memória daquele que é possivelmento o meu filme preferido dela: son nom de venice dans calcuta desert.
cadernos 01/97

"... a cultura é a regra, a arte é a excepção
(...) faz parte da regra querer a morte da excepção"

Jean Luc Godard, JLG/JLG
cadernos 07/97

"A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo."

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso
cadernos 04/97

era o tempo em nos alimentavamos (ainda) dos lugares.
desses lugares fora do tempo ou então à beira do desaparecimento.
(...)
das pessoas era mais difícil, porque as pessoas estão sempre a desaparecer. olhamos e já não estão lá. e depois ficamos abandonados às arbitrariedades da memória.
cadernos 01/97

"viajar era uma coisa própria da carne"
- William Gibson, Neuromancer
memória revisitada
recupero os cadernos de capas pretas. do tempo em que escrever era um exercício quase diário.
as mãos à tua procura. apercebo-me da possibilidade dessa explicação: a escrita acaba nesse lugar/tempo em que te encontro. ou, mais precisamente, em que aceito.

a vontade de escrever extingue-se no preciso instante em que percebemos que já não existe mais nada a procurar?
está aqui tudo. completo. escrever para quê?

então para escrever é preciso que estejamos um pouco insatisfeitos, infelizes?
é preciso perceber que ainda temos fome?

fome de quê?

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