Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim
Chico Buarque
resistir é vencer
(...) Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? (...)
José Mário Branco, FMI
José Mário Branco, FMI
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
Chico Buarque
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
Chico Buarque
insónia e cafeína
a insónia é uma boa amiga que inventa o tempo disponível para os ócios mais antigos.
o pior é suportar o peso dos dias.
o pior é suportar o peso dos dias.
leio os "cadernos de capas pretas" do tempo em que a escrita era um exercício quase diário.
citações, aforismos, recortes, comentários soltos, fragmentos.
falar com as palavras dos outros é sempre menos arriscado.
acho que disfruto pela primeira vez do jogo do blog. persigo o leitor no preciso instante em que lê. acrescento imagens. linko. faço o claim. compro acções.
não era nada disto que eu queria. mas à irritação desta constatação sucede-se o reconhecimento de que de certa forma este jogo me reaproxima da escrita...
escrever é uma actividade sempre posterior à leitura.
tento chegar ao desejo de ler por aqui.
Regresso (é a palavra certa) ao meu Ulisses.
Há tanto tempo que a insónia tinha deixado de ser uma amiga leal.
citações, aforismos, recortes, comentários soltos, fragmentos.
falar com as palavras dos outros é sempre menos arriscado.
acho que disfruto pela primeira vez do jogo do blog. persigo o leitor no preciso instante em que lê. acrescento imagens. linko. faço o claim. compro acções.
não era nada disto que eu queria. mas à irritação desta constatação sucede-se o reconhecimento de que de certa forma este jogo me reaproxima da escrita...
escrever é uma actividade sempre posterior à leitura.
tento chegar ao desejo de ler por aqui.
Regresso (é a palavra certa) ao meu Ulisses.
Há tanto tempo que a insónia tinha deixado de ser uma amiga leal.
Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.
Olhei apenas para as águas do rio (porque
me senti tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.
- João Miguel Fernandes Jorge
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.
Olhei apenas para as águas do rio (porque
me senti tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.
- João Miguel Fernandes Jorge
cadernos 04/94
"... ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se mantém há gerações."
Maria Gabriela Llansol, Amar Um Cão
"... ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se mantém há gerações."
Maria Gabriela Llansol, Amar Um Cão
os cadernos do tempo em que escrevia
estão aqui. estranha arqueologia.
esta leitura fragmentada e a forma como se vai misturando com a memória.
as ideias continuam válidas oito dez anos depois. a escrita que transborda da leitura. ler primeiro. escrevemos para de uma certa forma prolongar a leitura. escrevemos para ser amados.
estão aqui. estranha arqueologia.
esta leitura fragmentada e a forma como se vai misturando com a memória.
as ideias continuam válidas oito dez anos depois. a escrita que transborda da leitura. ler primeiro. escrevemos para de uma certa forma prolongar a leitura. escrevemos para ser amados.
cadernos 1/94
"Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros são as tentativas mais puras do Universo.
Olha-os, e não os mates.
(...) a escuridão de escrever permite apanhar, no auge, os frutos da claridade. O modo faz o percurso fora do percurso, margina-o de um sabor estranho mas que dá à contemplação a parte mais veloz do voo. Faço como tu.
(...) Eu ando a pé: penso com maior velocidade."
Maria Gabriela Llansol, O Raio sobre o Lápis
"Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros são as tentativas mais puras do Universo.
Olha-os, e não os mates.
(...) a escuridão de escrever permite apanhar, no auge, os frutos da claridade. O modo faz o percurso fora do percurso, margina-o de um sabor estranho mas que dá à contemplação a parte mais veloz do voo. Faço como tu.
(...) Eu ando a pé: penso com maior velocidade."
Maria Gabriela Llansol, O Raio sobre o Lápis
cadernos 1/94
Aos Amigos
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder
Aos Amigos
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder
cadernos 01/96
uma carta que regresse devagar à morada das tuas mãos. não escrevo há muito tempo. e é assim uma espécie de não-existir; como se não fosse possível medir os dias sem a escala das palavras. as palavras como marcas, sinais, pontos de referência no deserto.
voltava para casa. um pouco triste por causa da morte da Duras. sobreviver: tudo na Duras se pode condensar nesta palavra. sobreviver a tudo, até ao amor. como em moderato cantabile. acho que gostava que a Duras tivesse morrido de amor.
não consigo contornar a memória daquele que é possivelmento o meu filme preferido dela: son nom de venice dans calcuta desert.
uma carta que regresse devagar à morada das tuas mãos. não escrevo há muito tempo. e é assim uma espécie de não-existir; como se não fosse possível medir os dias sem a escala das palavras. as palavras como marcas, sinais, pontos de referência no deserto.
voltava para casa. um pouco triste por causa da morte da Duras. sobreviver: tudo na Duras se pode condensar nesta palavra. sobreviver a tudo, até ao amor. como em moderato cantabile. acho que gostava que a Duras tivesse morrido de amor.
não consigo contornar a memória daquele que é possivelmento o meu filme preferido dela: son nom de venice dans calcuta desert.
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