"Are you not blinded by such expressionless sirens?"

Sylvia Plath, Crossing the Water

poetas

"Os poetas só podem mudar o mundo às pessoas frágeis que os amam."

Joaquim Cardoso Dias, DNJ 30/05/1993

fora do enquadramento



(dedicatória para a Desassossegada)

case sensitive

parece que a Charlotte é "case sensitive"...
escrever só com minúsculas não é uma moda. é mesmo preguiça.
no meu caso pelo menos. acho que vem da escrita por email e do tempo dos posts nas news (alguém se lembra do soc.culture.portuguese?)
é que para fazer uma maiúscula é necessário carregar em mais uma tecla.

em escuta


as citações e os espelhos

(notas rápidas para um texto futuro.)

quando leio uma citação interessa-me também o reflexo da citação sobre mim próprio.
porque as citações são uma espécie de espelhos. e um espelho é um milhão de espelhos para os ângulos do olhar.

e depois disso o jogo da memória. os espelhos guardam uma memória?

Zerkalo (URSS 1975)



O meu filme.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque

resistir é vencer

(...) Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? (...)

José Mário Branco, FMI

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque
http://www.bach2cage.com/

e já agora aproveitem e passem também por aqui

insónia e cafeína

a insónia é uma boa amiga que inventa o tempo disponível para os ócios mais antigos.
o pior é suportar o peso dos dias.
regressar

O tempo do regresso não é "cronometrável". Há aqui uma espessura que nos escapa.
E depois existe o problema de nunca se regressar ao mesmo lugar.
leio os "cadernos de capas pretas" do tempo em que a escrita era um exercício quase diário.
citações, aforismos, recortes, comentários soltos, fragmentos.
falar com as palavras dos outros é sempre menos arriscado.

acho que disfruto pela primeira vez do jogo do blog. persigo o leitor no preciso instante em que lê. acrescento imagens. linko. faço o claim. compro acções.
não era nada disto que eu queria. mas à irritação desta constatação sucede-se o reconhecimento de que de certa forma este jogo me reaproxima da escrita...

escrever é uma actividade sempre posterior à leitura.
tento chegar ao desejo de ler por aqui.

Regresso (é a palavra certa) ao meu Ulisses.
Há tanto tempo que a insónia tinha deixado de ser uma amiga leal.

Tirei os sapatos, pois eles enterravam-se sistematicamente na areia. Agradava-me a ideia de os deixar ali pousados no tronco, apontando para o mar como uma espécie de bússola da alma, depois de morrer.
- Sylvia Plath

Que distância haverá entre a literatura e o sofrimento? será ela função da natureza do sofrimento, da sua intensidade ou do espaço que os separa? A obra literária estará mais próxima do sofrimento que causa o reflexo do fogo ou aquele que provém do próprio fogo?


Stig Dagerman, in Outono Alemão

- Tive um mau dia. Tive de subverter os meus princípios e bajular um idiota.
- A televisão torna estes sacrifícios diários possíveis.
- Enfraquece o âmago do meu ser.


in "Trust", Hal Hartley

Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.

Olhei apenas para as águas do rio (porque
me senti tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
Tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.


- João Miguel Fernandes Jorge
como seria bom conseguir viver de acordo com as sábias palavras do poeta.




Rest before labour.
- William Blake

cadernos 04/94

"... ler é nunca chegar ao fim de um livro respeitando-lhe a sequência coercitiva das frases, e das páginas. Uma frase, lida destacadamente, aproximada de outra que talvez já lhe correspondesse em silêncio, é uma alma crescendo. Eu não consigo abranger a infinitude do número e da harmonia das almas, nem o texto de um verdadeiro livro, nem a terra de um jardim que se mantém há gerações."
Maria Gabriela Llansol, Amar Um Cão
os cadernos do tempo em que escrevia

estão aqui. estranha arqueologia.
esta leitura fragmentada e a forma como se vai misturando com a memória.

as ideias continuam válidas oito dez anos depois. a escrita que transborda da leitura. ler primeiro. escrevemos para de uma certa forma prolongar a leitura. escrevemos para ser amados.
cadernos 1/94

"Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros são as tentativas mais puras do Universo.
Olha-os, e não os mates.

(...) a escuridão de escrever permite apanhar, no auge, os frutos da claridade. O modo faz o percurso fora do percurso, margina-o de um sabor estranho mas que dá à contemplação a parte mais veloz do voo. Faço como tu.

(...) Eu ando a pé: penso com maior velocidade."

Maria Gabriela Llansol, O Raio sobre o Lápis
cadernos 1/94

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Hélder
cadernos 01/96

uma carta que regresse devagar à morada das tuas mãos. não escrevo há muito tempo. e é assim uma espécie de não-existir; como se não fosse possível medir os dias sem a escala das palavras. as palavras como marcas, sinais, pontos de referência no deserto.
voltava para casa. um pouco triste por causa da morte da Duras. sobreviver: tudo na Duras se pode condensar nesta palavra. sobreviver a tudo, até ao amor. como em moderato cantabile. acho que gostava que a Duras tivesse morrido de amor.
não consigo contornar a memória daquele que é possivelmento o meu filme preferido dela: son nom de venice dans calcuta desert.
cadernos 01/97

"... a cultura é a regra, a arte é a excepção
(...) faz parte da regra querer a morte da excepção"

Jean Luc Godard, JLG/JLG
cadernos 07/97

"A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo."

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso
cadernos 04/97

era o tempo em nos alimentavamos (ainda) dos lugares.
desses lugares fora do tempo ou então à beira do desaparecimento.
(...)
das pessoas era mais difícil, porque as pessoas estão sempre a desaparecer. olhamos e já não estão lá. e depois ficamos abandonados às arbitrariedades da memória.
cadernos 01/97

"viajar era uma coisa própria da carne"
- William Gibson, Neuromancer
memória revisitada
recupero os cadernos de capas pretas. do tempo em que escrever era um exercício quase diário.
as mãos à tua procura. apercebo-me da possibilidade dessa explicação: a escrita acaba nesse lugar/tempo em que te encontro. ou, mais precisamente, em que aceito.

a vontade de escrever extingue-se no preciso instante em que percebemos que já não existe mais nada a procurar?
está aqui tudo. completo. escrever para quê?

então para escrever é preciso que estejamos um pouco insatisfeitos, infelizes?
é preciso perceber que ainda temos fome?

fome de quê?

acerca do voto em branco

ao contrário da cobardia da abstenção (que tecnicamente não passa de um voto no resultado), o voto em branco é a expressão mais clara contra todas as opções disponíveis.

e acerca disto vou um pouco mais longe que o Saramago.
eu não costumo votar em branco, mas acho que o voto em branco é um voto expresso. que devia estar democraticamente representado na assembleia.
cadeiras vazias para os votos em branco!
para que os políticos se confrontem todos os dias com essa ausência.

porque eu acredito no poder da ausência. activa.
ouço repetidamente
just another song
on a day like this

tinha perdido estas canções há alguns anos.
agora ouço o CD e é bom saber que a memória não traiu.
letters from lovers and other strangers
mortuary blues some are young and some are old but they are all too young for to be that cold hazy memories another sad day and it's still raining on a day like this with one embrace you gave this place your name and face bitter kisses you offered me bitter kisses and sour wine behind closed doors the face you show tells nothing no more like strangers we met like a stranger you left just another song maybe the day will come and I'm gone but baby stay in my mind like this song blue eyed angel when skies are tumbling down crawl under my skin this is the moment to begin new day no more tears to cry even though there are reasons why a smile can change your way and laughter makes your day kick up the fire become immortal before you die dark friend blue deep when the day is gone in a fight with the sun it's your kingdom hawaii song all moments we had there's not one I regret just for you just for you
four star five
ainda as rotinas: lista de intenções
inventariar as rotinas.
as rotinas mais perigosas são muitas vezes as que estão escondidas nessa coisa espessa em que se transformaram os dias.
apagar as rotinas ineficientes que ocupam demasiado tempo.
montar rotinas "úteis" contra as rotinas "preguiçosas".
regressar às rotinas que libertam.


rotinas que libertam
como saber o lugar ou o momento preciso em que a rotina deixa de ser uma ferramenta ao serviço da liberdade?
eu costumava ser um defensor convicto das rotinas.
colocar uma rotina em funcionamento servia para me libertar para coisas mais interessantes, mais desorganizadas, criativas, excitantes, etc.
agora, alguns anos depois, já não tenho tanto essa certeza.
uma rotina também é um processo perigoso.
e além disso cada rotina que colocamos em funcionamento também vai consumindo um pouco mais de "processamento central".
as rotinas vão de forma insidiosa ocupando a nossa disponibilidade.
quando é que a rotina se transformou numa rotina "má"?
não sei muito bem, mas parece-me que terá algo a ver com a preguiça.
com a relação estranha entre a preguiça e a inteligência. a inteligência a colocar as novas rotinas ao serviço da preguiça.
esta é a verdadeira linha do perigo.

o pêndulo
"nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade"
ou
"a liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de forma diferente da nossa"
(cito de memória)
eu quero ser hespanhol
ouço zapatero e sinto uma espécie de inveja dos outros povos da península.
nostalgia I
o café palácio vazio.
um pouco antes dos primeiros grupos começarem a chegar.
a solidão e a liberdade.
de nunca ter tido a minha "tribo".

esses últimos dias do ano ainda são aqueles em que me fazem mais falta os amigos.

um pouco como se o mundo fosse acabar e tivéssemos que partir em muitas naus diferentes. para longe.
destino incerto.

quem vem na minha nau?
não me deixes só na noite escura em que a nossa casa se transformou.

tenho frio.
escreves palavras que se apagam como quando se lêem sem leitores escreves devagar e esperas um pouco.
estas palavras só existirão na tua memória.

ninguém lê. verdadeiramente nada.

a memória inventada
quanto tempo demora a sair da pele o sabor o cheiro a solidão dos dias horas que passamos entre as páginas de um livro?
"I shall not be alone, in the beginning. I am of course alone. Alone. That is soon said. Things have to be soon said. And how can one be sure, in such darkness?" - Beckett, The Unnamable
a existência da escrita
onde estamos quando não escrevemos?
do estado da arte e do lamento dos artistas
"Seria cruel recusar uma ponta de piedade humana aos milhares de indivíduos atingidos por esta situação de necessidade. Se, ainda há pouco, um artista apreciado estava habituado a receber das classes confortavelmente despreocupadas da nossa próspera sociedade um salário de ouro e podia aspirar a uma vida igualmente despreocupada e confortável em troca dos seus produtos de agrado público, há-se ser-lhe difícil ver-se hoje em dia repelido por mãos fechadas e receosas e ficar dependente das obrigações de um salário. Partilha assim por inteiro do destino do trabalhador manual que noutro tempo podia ocupar a habilidade das mãos na criação de mil e uma comodidades para o agrado dos ricos e que hoje, ocioso, tem que as apertar contra o estômago vazio. Tem, portanto, o direito de se lamentar; porque aos que sofrem deu a natureza a possibilidade das lágrimas. Mas o que já pode ser posto em causa é o direito de este artista se confundir com a própria arte, de lamentar a sua situação como a situação geral da arte (...) E antes de decidirmos sobre esta questão, haveria de inquirir, pelo menos junto daqueles artistas em relação aos quais se pode comprovar que, não só em palavras, mas também em actos, manifestaram o seu amor puro pela arte e se entregaram a uma prática da arte por si mesma, se não estavam sujeitos a privações no tempo em que os outros andavam satisfeitos."
Richard Wagner, 1849
Já não escrevemos, porque estamos quase sempre cansados, exaustos, à beira do limite dos corpos. Já não escrevemos talvez porque o tempo nos ensinou que afinal as palavras não aproximam e os dias vão ficando mais curtos como se fosse sempre Inverno sem nunca se estar a meio do Inverno. Já não sei dizer isto.
Leni Riefenstahl
Confesso humildemente a minha admiração pelo trabalho desta senhora.
Os filmes de Leni Riefenstahl sempre me deixaram uma espécie de desconforto; talvez por causa da tensão entre o prazer puro das imagens, dos planos, dos movimentos da câmara e a razão da consciência política, das ideias subjacentes às imagens.
Otto e mezzo
É o meu filme preferido de Fellini. Ao revisitá-lo agora recordo-me porquê. Devagar.
A única memória consistente que tinha do filme era a da sequência final. Tinha-se apagado quase tudo à volta desta ideia resistente; de ser 8 1/2 o meu filme preferido de Fellini.
"O mundo já está cheio de imagens supérfluas"

Começar de novo.
Nunca se começa "de novo".
Existem muito poucas coisas mais sedutoras do que a ideia de "começar de novo".
Infelizmente trata-se de uma espécie de armadilha.
Recomeçamos, na melhor das hipóteses, sobre aquilo que foram os nossos erros. Com mais experiência e sabedoria. ("Falhar outra vez; falhar melhor").
Mas também inevitavelmente com as limitações, as cicatrizes, o cansaço, o pó dos caminhos.
Incêndios (I)
Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: - Cobardes, que nos deram um planeta sujo!
- José Gomes Ferreira
Metablogar
De que nos servem as palavras que temos nas mãos?
Há (ainda) alguma coisa que mereça ser dita?
Porque é que não guardamos estas palavras embrulhadas em papel? Como sempre fizémos.

Passo duas ou três horas a ler blogues.

Li no monólogo: meço o tempo que invisto em qualquer coisa, pelo que aprendo com ela.

O problema reside na dificuldade da percepção. Quanto tempo demoramos a perceber que aprendemos qualquer coisa?
Como é (quando) que sabemos que aprendemos?
A duração.
- E agora perdes finalmente por completo a linha. Regressa ao livro, à escrita, à leitura. Aos textos primitivos onde é, por exemplo, dito: "Deixa ressoar a palavra, sê-lhe fiel - seja o momento favorável ou desfavorável." Já viveste um dia conseguido? Através do qual, o instante conseguido, a vida conseguida, talvez até a eternidade conseguida se reuniriam de uma vez por todas?
Peter Handke, in Ensaio sobre o Dia Conseguido
Escrever.
Não ter vontade de escrever foi coisa que nunca me perturbou.
De todas as teorias acerca da pulsão da escrita a que sempre mais me agradou foi a de que escrevemos porque queremos ser amados.
As pessoas verdadeiramente felizes não escreveriam, portanto.
Pensava eu que para escrever era preciso ter fome.
Não acredito em poetas saciados.

Ler.
Volta devagar, o desejo de ler. Não sabia que ia ser assim.
Quando percebi que já não conseguia ler pensei que se tratava apenas de um parentesis breve.
Afinal eu achava que não se sobrevive sem as palavras. Escritas, o barulho lento das páginas, o cheiro da tinta.
Mas sobrevivemos a tudo.
A Phala - Número Cem
Para voltar a ler um texto belíssimo de José Tolentino Mendonça acerca da herança do poder das histórias; que é (também) uma homenagem a Manuel Hermínio Monteiro.

(...) Há histórias que nos pintaram o rosto com terra amassada, vermelha, amarela, negra e iniciaram-nos na decifração do fogo, na escuta dos silêncios da terra, no entendimento dos sonhos. Há histórias que nos conduziram ao centro impenetrável de bosques, aos segredos da penumbra de um templo, à geografia de cidades, ao alarido dos mercados e à hesitação que a sabedoria por vezes dissolve, por vezes amplia.
Pelas histórias descobrimos a vastidão de um mundo interior, intacto e errante como uma paisagem do fundo dos mares, e assim primordial e delicado, arcaico e sublime. Das histórias recebemos o socorro quando nos faltaram as palavras (ou outra coisa que não sabemos bem, mas que talvez nem fossem palavras) para medir a altura da alegria, porque, de repente, o amor, a poesia, a santidade se avizinharam e, percebemos, nada antes tinha sido, para nós, tão belo e tão perigoso.
(...) Seja o poder das histórias, essa torrente imemorial, secreta e profusa, esse sopro íntimo que arranca do mundo, da extrema fragilidade do mundo, o encantado desenho de uma música interminável, a dizer o amigo que atava as grandes histórias, as mais maravilhosas, em livros (sem os quais não seríamos os mesmos, ou não conseguiríamos talvez já viver), pela paixão, pela simples paixão, de encher a nossa vida desses ramos perfumados e bravios!

O Navio de Espelhos, Livraria.
Saúdo a imprudência, a coragem, a provocação.
Bem hajam.

Repoduzo a seguir o "primeiro pretexto" que me separa agora a página par da página ímpar:

a urgência de imprimir a palavra ler na combustão dos minutos poesia mergulhar no livro tão inevitavelmente a fundo e sair mesmo do outro lado numa espécie de porta música poucos têm o desejo de se revoltar nos nossos dias teatro o embarque é inadiável e hoje é o sonho que nos sonha a pintura espaço para quem ouse dança a criação consiste justamente em lutar para manter o sentido das palavras literatura as palavras têm que nascer de novo
O Estado da Blogosfera (II)
Os weblogs são ferramentas tecnicamente muito mais poderosas do que um newsgroup.
As ferramentas de edição/publicação permitem gerir os conteúdos de uma forma ao mesmo tempo imediata, mas já com algum grau de sofisticação.
Por outro lado a virtualização permite a explosão do espaço disponível para limites antes considerados improváveis.
Esta "coisa" cresce muito rapidamente e uma das reacções naturais e instintivas é linkar.
Linkar é uma palavra maravilhosa. É quando sentimos que estamos a perder o controle, que vamos cair no vazio inexorável, que nos surge este desejo de linkar.
Os links são um movimento do instinto que mantém a blogosfera a um nanosegundo da desintegração.
São as linhas visíveis que estabelecem a continuidade espaço-tempo da blogosfera.


(Existem evidentemente Weblogs que não têm links, sendo ainda assim bastante consistentes, sólidos. São persistentes, atentos e sobretudo parece que são lidos. Ganharam a tal massa crítica; têm poder.
Suspeito que estes são também os que têm um link mais forte com o chamado "mundo exterior" - a imprensa, o meio académico.)
O Estado da Blogosfera (I)
Devo dizer que acho muito positiva a exposição democrática a que a blogosfera está a ser submetida.
Há cerca de 10 anos discutíamos a mesma coisa relativamente à internet e à soc.culture.portuguese (alguém se lembra?).
Algumas pessoas defendiam que o acesso generalizado à Internet seria o fim da Internet. Recordo-me por exemplo de ver (ler) pessoas por quem tinha algum respeito intelectual escreverem que o acesso à Internet (e em particular ao soc.culture.portuguese) devia ser vedado aos estudantes "undergrad"...
Havia efectivamente um problema de relação ruído/sinal. A tarefa do leitor estava cada vez mais dificultada pela explosão de posts, de vozes novas e múltiplas. A esmagadora maioria das vozes novas eram lixo, ruído; mas isto é apenas a minha opinião.
O que eu leio como ruído pode ser sinal límpido e cristalino para o meu vizinho do lado. É isto que a democracia tem de maravilhoso.
Herman SIC
Há muito tempo que deixei de ver o Herman. Sobretudo porque se tornou inofensivo.
O "custo" de se apanhar com cenas tristes e patéticas é muito elevado para o benefício de algum humor de qualidade.
O que sobra é demasiadas vezes a ignorância e o mau gosto. É pena.
Parece que mais uma vez se foi longe de mais na direcção errada.
Lula
Pode ser por ingenuidade, mas Luis Inácio Lula da Silva comove-me. Ouço na TSF aquele pedaço de discurso "... se, ao final do meu mandato, todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, terei cumprido a missão da minha vida". Não posso deixar de me comover com a simplicidade, com a franqueza destas palavras. E não posso ouvir calado alguns "comentadores" da nossa praça que insistem em fazer passar subliminarmente esta ideia peregrina de que a esperança numa sociedade mais justa é um sinal de mediocridade intelectual.
textos sobre o Fome Zero
4 da manhã.
Recomeço pelo princípio. Homero Odisseia. Se não tivesse ainda a memória de Borges e Calvino talvez não soubesse. Não teria esta certeza de ser aqui que se começa a ler.
Não escrever.
Ainda sobre o post do José Mário Silva. Como eu admiro esta vontade de escrever. Comove-me.
Eu, se pudesse, lia.
A FRASE DO DIA (de ontem):
... já ninguém consegue acompanhar, com a devida atenção , tudo o que se passa de importante neste mundo (a blogosfera) em que a Terra Incognita cresce mais depressa que a nossa capacidade de desenhar novos mapas. Eu tentei pôr-me à la page (horas a fio em frente ao ecrã) e não consegui. Pior, arrependi-me da tentativa inglória. Porque neste momento, há que dizê-lo, ou se lê ou se escreve. E eu quero escrever.
José Mário Silva em blog-de-esquerda
LORELEI
It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen
Sylvia Plath
Os Blogues que eu leio
estão listados aqui ao lado.
É uma lista provisória. (Talvez seja mais correcto chamar-lhe dinâmica.)
São referências. A minha geração gosta muito de referências e citações.
Reparo que somos muito criticados por isso.
Não entendem que quando citamos o fazemos por respeito e admiração.
I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart;
I am trying to bribe you with uncertainty , with danger, with defeat

Borges, Two English Poems
-.-
;%

k
UNCERTAIN SMILE:
Estive a ler cartas antigas.
Não me lembro de mim. Ainda não.
Li duas cartas da IAS e voltei a a fechar a caixa grande de madeira onde estão guardadas. Por pudor.
De repente era como se estivesse a ler a correspondência de outra pessoa.
Porquê um Blogue? (III)
Por causa da "combustão ser total" e instantânea (como diz o MEC).
E porque é mais fácil de esconder do que o caderno de capa preta.
Porquê um Blogue? (II)
Porque já não tenho moradas para onde enviar cartas.
Porquê um Blogue? (I)
Há já algum tempo que sentia necessidade de voltar a escrever. Para ser completamente honesto o que eu sabia era que necessitava de voltar a ler.
Tento recordar-me. Escrever para quê?
Escreve-se em primeiro lugar à procura de quem nos leia.
(Não consigo deixar de recordar a frase do Martin Amis: "Os escritores são como as putas: querem ser pagos, querem ser amados e têm a nostalgia da respeitabilidade..." - acho que era mais ou menos assim...)
Mas eu não sou um escritor.
A maior parte do que escrevi foi o que me sobrou da leitura.
Porque escrevo então agora antes dos livros que hei-de ler?

MyLifeBits: Nothing is better than the real thing.
A vida não é (completamente) digitalisável. Aceito que os scanners tenham uma neutralidade que a escrita não tem. Porque a escrita se deixa sempre contaminar por alguma ficção (mesmo que inconsciente).
Mas não se trata só de uma questão de honestidade rigorosa das máquinas, nem sequer da disponibilidade de terabytes de "espaço-tempo" virtuais. Nem mesmo da "sensibilidade" das máquinas digitalizadoras (os dpis dos scanners de imagem, por exemplo).
A ciência (Heisenberg, o principio da incerteza) e a Literatura (Borges, Bioy Casares, por exemplo) sabem que o virtual, a representação do real não pode atingir o próprio real. Porque há um momento em que o virtual se aproxima demasiado do real e é engolido.
LIVRO (tentativa de leitura)
Passo as mãos pela capa de um livro. Gostava de escrever que as mãos recordam, mas não é verdade.
Leio: "Canto Primeiro".
Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açucar.
A advertência faz sobrepôr a cautela ao desejo de ler. Os livros são objectos perigosos.
SEXTO SENTIDO:

Uma amiga (que desconhece a existência deste blogue) escreveu-me esta mensagem.
É uma sorte termos amigos assim.


Obsessão: sessão no rio Ob.

(...)

A arte educa. É por isso que os escritores devem conhecer a vida. Proust é o
melhor exemplo. Não sabia nada da vida. Sequestrou-se voluntariamente;
fechou-se num quarto forrado a cortiça. Caso extremo. Não se pode escrever
em quartos de cortiça. Não se ouve nada.

(...)

Um dia Jo perguntou-lhe: " Tio, como é uma girafa? "
O tio não fazia a mínima ideia da aparência deste animal. Desde os vinte
anos que não se interessava rigorosamente por mais nada a não ser a sua
grande obra, e isto não lhe permitia sair das quatro paredes do seu quarto.

O ELEFANTE, mrozeck


Se te quiseres contextualizar ( palavra estranha fora da documentação
relacionada com o ensino! ), tens mesmo que ler o livro porque eu não te
conto o resto das histórias.


NÃO LER (III):
Percorro a estante devagar. Um livro que me chame.
Se não tivéssemos lido livros, teríamos sido mais felizes?
NÃO LER (II):
Escrevo à procura de uma boa razão para ler?
MOTOR DE BUSCA (II)
Estava à procura de uma velha amiga no Google. Não encontrei nada.
Acabei por ir parar a uma página que é agora o que resta do DN Jovem. Fiquei muito deprimido.

NÃO LER
Há cinco anos que não leio livros. (Eu sei; é um bocadinho mais grave do que comer pipocas na sala de cinema...)
Ainda não percebi bem porque que é que isso aconteceu.
Entender esse processo é uma das tarefas que me proponho cumprir neste blogue.

Borges dizia que a leitura é uma actividade mais nobre que a escrita...

Escrevo.

Primeiro com as palavras dos outros: "tenho muitos, muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida".
MOTOR DE BUSCA
Escrevo. As palavras à procura.

Arquivo