Os Meus Livros

[...] talvez eu tenha uma árvore por amante; amante da minha árvore, figura humana que eu projecto nela, cria o amor num dia melhor do que toda a beleza que eu enuncio ao escrever; ofereço-lhe este texto, com o risco de que não me compreenda. "É para si", e concluo "é para nós"; eu entendo de igual modo as árvores, e as letras que atravessam as linhas dos livros; vivemos sob a lei da refulgência da natureza que, à hora crepuscular, explica quais são as proporções entre o homem e o resto do mundo; quantas vezes este pinhal não poderá afirmar que por aqui passou um texto, elaborado entre ele e a sua árvore? [...]

Maria Gabriela Llansol

in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes cínzeas e de cínzeos olhos
Que inutilmente busco nos espelhos
E com esta mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me exprimem residem nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Falarão de mim sempre.

Jorge Luis Borges

in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991
trad. José Bento
"Aumento pontualmente as páginas deste diário e esqueço as que hão-de desculpar-me dos anos que a minha sombra se demorou na terra (...). No entanto, o que hoje escrevo será uma precaução. Estas linhas permanecerão invariáveis, apesar da flutuação das minhas convicções. " (in A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares, ed. Antígona, Lisboa 1984)


sabe bem. regressar a um livro. como se regressa a um lugar que amamos desde sempre.
alguns livros foram durante muito tempo a minha casa.


a doença da leitura

as mãos devagar sobre a pele do livro. como dizer esse estremecimento?
essa expectativa inquieta que antecede o momento preciso em que afastas as páginas.

há livros assim, quase sagrados, que me perturbam um pouco sempre ainda todas as vezes em que lhes pego.
apesar do todas as advertências, leio.

"Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno;" (Lautréamont, Cantos de Maldoror)

a doença da leitura

"[...] porque a certo momento boa parte dos livros deixaram de me interessar, tal como se começa nas drogas leves e depois se vai para as duras. Alguns livros foram deslocando quase imperceptivelmente os meus interesses. É uma experiência que, quando se é novo e se está totalmente aberto, é altamente dramática e no fundo incontrolável. Depois, boa parte da nossa vida reside em fazer algo desses efeitos iniciais que nos tornam "desadaptados" e incapazes para viver uma vida "desmaravilhada"."

José Augusto Bragança de Miranda, entrevista DNA 23/04/2004

I've got you under my blog

gosto de pensar que os blogues são apenas pequenas erupções à flor da pele de um imenso mundo subterrâneo.

(às vezes os meus emails são mais belos que os vossos posts.)

nunca ao domingo

não escrever

escrevo. é sempre mau sinal, esta coisa de escrever. as mãos à tua procura.
o subtexto já sabe, advinha. o texto por escrever.

sento-me e espero. pode ser que passe.

em escuta

a solidão reinventada

passei toda a manhã na companhia deste blogue.
não fosse o movimento estranho da leitura dos blogues (de baixo para cima) e poderia dizer que o "folheei" demoradamente como a um livro com que nos sentamos numa manhã fresca de maio.



"Are you not blinded by such expressionless sirens?"

Sylvia Plath, Crossing the Water

poetas

"Os poetas só podem mudar o mundo às pessoas frágeis que os amam."

Joaquim Cardoso Dias, DNJ 30/05/1993

fora do enquadramento



(dedicatória para a Desassossegada)

case sensitive

parece que a Charlotte é "case sensitive"...
escrever só com minúsculas não é uma moda. é mesmo preguiça.
no meu caso pelo menos. acho que vem da escrita por email e do tempo dos posts nas news (alguém se lembra do soc.culture.portuguese?)
é que para fazer uma maiúscula é necessário carregar em mais uma tecla.

em escuta


as citações e os espelhos

(notas rápidas para um texto futuro.)

quando leio uma citação interessa-me também o reflexo da citação sobre mim próprio.
porque as citações são uma espécie de espelhos. e um espelho é um milhão de espelhos para os ângulos do olhar.

e depois disso o jogo da memória. os espelhos guardam uma memória?

Zerkalo (URSS 1975)



O meu filme.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque

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