"Depois de lhe ter explicado mil vezes que só queria ver o jardim, a Asegurada acabou, finalmente, por concordar em acompanhar-me. O jardim era muito verde, apesar dos tufos de vapores azulados dos eucaliptos altos; frente a Covadonga havia um pomar de macieiras carregadas de maçãs."
Leonora Carrington, Em Baixo, Black Son Editores, Lisboa 1990
SELF-POTRAIT 1
My cats
enjoy playing
with my cockroaches
My cockroaches
enjoy eating
my potatoes
And
what about
my potatoes?
Adília Lopes, in César a César, &etc 2003
enjoy playing
with my cockroaches
My cockroaches
enjoy eating
my potatoes
And
what about
my potatoes?
Adília Lopes, in César a César, &etc 2003
lista jardins diz
os labirintos.
os jardins do último ano em marienbad.
o jardim dos caminhos que se bifurcam.
os jardins da memória.
da infância.
o perfume das glicínias da casa onde nasci.
onde inventei os primeiros jardins.
imensos.
os meus livros.
os jardins do último ano em marienbad.
o jardim dos caminhos que se bifurcam.
os jardins da memória.
da infância.
o perfume das glicínias da casa onde nasci.
onde inventei os primeiros jardins.
imensos.
os meus livros.
mot juste
"Mas como teremos a certeza de achar a palavra certa? [...] Quanto mais se fala, menos significam as palavras."
reflexos da janela
"é a nossa história; um pintor que faz o retrato da sua mulher [...] queres que continue?"
em vivre sa vie o movimento das palavras navega à vista do corpo. da imagem. não se pode viver na vida sem as palavras. e no entanto todo o filme se pode conter num rosto. todas as histórias. nana, joana d’arc. as lágrimas na superfície de um rosto. como as palavras sobre a película.
comove-me o modo como as imagens se contaminam.
dentro/fora. interior/exterior. vestir/despir. som/silêncio. nada ao acaso.
é talvez por isso que se torna tão difícil escrever sobre o filme.
porque é um trabalho que já está feito no próprio filme.
e porque apesar de tudo as palavras nunca sabem dizer.
em vivre sa vie o movimento das palavras navega à vista do corpo. da imagem. não se pode viver na vida sem as palavras. e no entanto todo o filme se pode conter num rosto. todas as histórias. nana, joana d’arc. as lágrimas na superfície de um rosto. como as palavras sobre a película.
comove-me o modo como as imagens se contaminam.
dentro/fora. interior/exterior. vestir/despir. som/silêncio. nada ao acaso.
é talvez por isso que se torna tão difícil escrever sobre o filme.
porque é um trabalho que já está feito no próprio filme.
e porque apesar de tudo as palavras nunca sabem dizer.
apneia
leio no 1bsk um post delicioso acerca Dos Espectadores de Cinema Que Ficam Sempre Na Sala Até Ao Fim Da Ficha Técnica.
já houve um tempo em que fui militante.
agora fico sentado porque preciso desse tempo para sair do filme. devagar.
não há momento mais mágico do que esse tempo inexistente. suspenso. em que fico a ler a ficha técnica sem verdadeiramente ler. essa espécie de parêntesis entre o filme e a vida lá fora.
depois respiro fundo e saio, corajosamente, em direcção à luz.
já houve um tempo em que fui militante.
agora fico sentado porque preciso desse tempo para sair do filme. devagar.
não há momento mais mágico do que esse tempo inexistente. suspenso. em que fico a ler a ficha técnica sem verdadeiramente ler. essa espécie de parêntesis entre o filme e a vida lá fora.
depois respiro fundo e saio, corajosamente, em direcção à luz.
don't walk away, in silence
assalta-me com excessiva frequência esta pergunta: haverá ainda alguma coisa que mereça verdadeiramente ser dita?
como escrever depois do silêncio que deixaram as palavras que deveriam ter dito tudo?
estive a ouvir Ian Curtis. closer. e depois love will tear us apart.
e não se pode ouvir nada depois disto. não há nada depois de love will tear us apart.
fica só esse ruído branco sujo metálico. morto.
como escrever depois do silêncio que deixaram as palavras que deveriam ter dito tudo?
estive a ouvir Ian Curtis. closer. e depois love will tear us apart.
e não se pode ouvir nada depois disto. não há nada depois de love will tear us apart.
fica só esse ruído branco sujo metálico. morto.
Os Meus Livros
[...] talvez eu tenha uma árvore por amante; amante da minha árvore, figura humana que eu projecto nela, cria o amor num dia melhor do que toda a beleza que eu enuncio ao escrever; ofereço-lhe este texto, com o risco de que não me compreenda. "É para si", e concluo "é para nós"; eu entendo de igual modo as árvores, e as letras que atravessam as linhas dos livros; vivemos sob a lei da refulgência da natureza que, à hora crepuscular, explica quais são as proporções entre o homem e o resto do mundo; quantas vezes este pinhal não poderá afirmar que por aqui passou um texto, elaborado entre ele e a sua árvore? [...]
Maria Gabriela Llansol
in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991
Maria Gabriela Llansol
in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991
Os Meus Livros
Os meus livros (que não sabem que eu existo)
São tão parte de mim como este rosto
De fontes cínzeas e de cínzeos olhos
Que inutilmente busco nos espelhos
E com esta mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me exprimem residem nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Falarão de mim sempre.
Jorge Luis Borges
in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991
trad. José Bento
São tão parte de mim como este rosto
De fontes cínzeas e de cínzeos olhos
Que inutilmente busco nos espelhos
E com esta mão côncava percorro.
Não sem alguma lógica amargura
Penso que as palavras essenciais
Que me exprimem residem nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
Falarão de mim sempre.
Jorge Luis Borges
in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991
trad. José Bento
"Aumento pontualmente as páginas deste diário e esqueço as que hão-de desculpar-me dos anos que a minha sombra se demorou na terra (...). No entanto, o que hoje escrevo será uma precaução. Estas linhas permanecerão invariáveis, apesar da flutuação das minhas convicções. " (in A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares, ed. Antígona, Lisboa 1984)
sabe bem. regressar a um livro. como se regressa a um lugar que amamos desde sempre.
alguns livros foram durante muito tempo a minha casa.
sabe bem. regressar a um livro. como se regressa a um lugar que amamos desde sempre.
alguns livros foram durante muito tempo a minha casa.
a doença da leitura
as mãos devagar sobre a pele do livro. como dizer esse estremecimento?
essa expectativa inquieta que antecede o momento preciso em que afastas as páginas.
há livros assim, quase sagrados, que me perturbam um pouco sempre ainda todas as vezes em que lhes pego.
apesar do todas as advertências, leio.
"Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno;" (Lautréamont, Cantos de Maldoror)
essa expectativa inquieta que antecede o momento preciso em que afastas as páginas.
há livros assim, quase sagrados, que me perturbam um pouco sempre ainda todas as vezes em que lhes pego.
apesar do todas as advertências, leio.
"Queira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno;" (Lautréamont, Cantos de Maldoror)
a doença da leitura
"[...] porque a certo momento boa parte dos livros deixaram de me interessar, tal como se começa nas drogas leves e depois se vai para as duras. Alguns livros foram deslocando quase imperceptivelmente os meus interesses. É uma experiência que, quando se é novo e se está totalmente aberto, é altamente dramática e no fundo incontrolável. Depois, boa parte da nossa vida reside em fazer algo desses efeitos iniciais que nos tornam "desadaptados" e incapazes para viver uma vida "desmaravilhada"."
José Augusto Bragança de Miranda, entrevista DNA 23/04/2004
José Augusto Bragança de Miranda, entrevista DNA 23/04/2004
I've got you under my blog
gosto de pensar que os blogues são apenas pequenas erupções à flor da pele de um imenso mundo subterrâneo.
(às vezes os meus emails são mais belos que os vossos posts.)
(às vezes os meus emails são mais belos que os vossos posts.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
