esquecimento

o arquitecto escreveu:
Os blogs não morrem. São abandonados como um caderno que se deixa na areia de uma praia para que alguém o descubra.

quem comanda o vento? os critérios do esquecimento são produto do acaso?

A forma do Céu e sua consequência na determinação das associações e comunicações celestiais

"Mas porque o homem, com as maldades da sua vontade e as consequentes falsidades do seu coração, fez desaparecer de si mesmo a imagem do Céu, substituindo-a pela imagem do Inferno, cegou a sua alma no momento do seu nascimento. Esta é a razão pela qual o homem nasce na mais absoluta ignorância, ao contrário de todos os outros animais que nascem inocentes."

Emanuel Swedenborg, Do Inferno, do Céu e dos Anjos, ed. Pergaminho 1994

pormenores (1)

em stalker no bar; a lâmpada fluorescente que nunca consegue acender.

triângulos

ciência, arte, religião. em stalker ensaiam-se alguns movimentos de convergência.
ABC=A'B'C'?
onde fica o centro geométrico desse triângulo de vértices em movimento?

stalker


Que se cumpra o que foi idealizado. Que acreditem. Que se riam das suas paixões. Porque o que consideram paixão, na realidade não é energia espiritual, mas apenas uma fricção entre a alma e o mundo externo. O mais importante é que acreditem e se tornem indefesos como crianças, porque a fraqueza é grande, enquanto a força é fútil. Quando uma pessoa nasce é fraca e flexível; quando morre, é forte e dura. A dureza e a força são acompanhantes da morte. Flexibilidade e fraqueza são a frescura do ser. Por isso, quem se torna duro não vencerá. in Stalker de Andrei Tarkovsky

Leonora Carrington



Si les jeunes me disent maintenant qui j'ai l'Esprit jeune je m'offense -
J'ai l'ESPRIT VIEILLE
Tachez de comprendre ça -

the impossible papers

Regresso com alguma precaução e este texto extraordinário que é En Bas de Leonora Carrington.
Talvez também por causa de Sylvia Plath.
(Os critérios da memória são insondáveis; a ordem, as ligações e sobretudo o esquecimento "selectivo".)

Regresso ao texto, à crueza das palavras.

Jean Schuster numa pequena nota prévia escreve:
"Durante muito tempo a loucura pareceu inefável. Os seus testemunhos gráficos ou literários não a descreviam, mas forneciam os resultados duma hiperestesia específica do naufrágio da razão. Para forçar a atenção do deserto - como falar, sem ser aos urros? Como dizer o delírio sem nos perdermos no grito que o diz? Os maiores, Nerval, Artaud, não foram capazes. O seu génio está na queda sem fim, para lá do abismo físico.
A narrativa de Leonora Carrington, En Bas, publicada em 1945 por Henri Parisot, é, sem dúvida, uma das primeiras do género. Uma narrativa começada três anos após o internamento, uma narrativa sem complacências nem desvios. O relato do comportamento psicótico pelo próprio sujeito, além de destroçar a noção de objectividade considerada como garantia científica de autenticidade, torna verosímil a hipótese dum estado mental que escape à alternativa saúde-doença."

the impossible papers

"Depois de lhe ter explicado mil vezes que só queria ver o jardim, a Asegurada acabou, finalmente, por concordar em acompanhar-me. O jardim era muito verde, apesar dos tufos de vapores azulados dos eucaliptos altos; frente a Covadonga havia um pomar de macieiras carregadas de maçãs."

Leonora Carrington, Em Baixo, Black Son Editores, Lisboa 1990

Leonora Carrington, Argument (1978)

memória


para a Cristina.

SELF-POTRAIT 1

My cats
enjoy playing
with my cockroaches

My cockroaches
enjoy eating
my potatoes

And
what about
my potatoes?


Adília Lopes, in César a César, &etc 2003

olhar a janela?


lista jardins diz

os labirintos.
os jardins do último ano em marienbad.
o jardim dos caminhos que se bifurcam.
os jardins da memória.
da infância.
o perfume das glicínias da casa onde nasci.
onde inventei os primeiros jardins.
imensos.
os meus livros.

mot juste



"Mas como teremos a certeza de achar a palavra certa? [...] Quanto mais se fala, menos significam as palavras."

reflexos da janela

"é a nossa história; um pintor que faz o retrato da sua mulher [...] queres que continue?"

em vivre sa vie o movimento das palavras navega à vista do corpo. da imagem. não se pode viver na vida sem as palavras. e no entanto todo o filme se pode conter num rosto. todas as histórias. nana, joana d’arc. as lágrimas na superfície de um rosto. como as palavras sobre a película.

comove-me o modo como as imagens se contaminam.

dentro/fora. interior/exterior. vestir/despir. som/silêncio. nada ao acaso.

é talvez por isso que se torna tão difícil escrever sobre o filme.
porque é um trabalho que já está feito no próprio filme.
e porque apesar de tudo as palavras nunca sabem dizer.

apneia

leio no 1bsk um post delicioso acerca Dos Espectadores de Cinema Que Ficam Sempre Na Sala Até Ao Fim Da Ficha Técnica.
já houve um tempo em que fui militante.
agora fico sentado porque preciso desse tempo para sair do filme. devagar.
não há momento mais mágico do que esse tempo inexistente. suspenso. em que fico a ler a ficha técnica sem verdadeiramente ler. essa espécie de parêntesis entre o filme e a vida lá fora.

depois respiro fundo e saio, corajosamente, em direcção à luz.

don't walk away, in silence

assalta-me com excessiva frequência esta pergunta: haverá ainda alguma coisa que mereça verdadeiramente ser dita?
como escrever depois do silêncio que deixaram as palavras que deveriam ter dito tudo?

estive a ouvir Ian Curtis. closer. e depois love will tear us apart.
e não se pode ouvir nada depois disto. não há nada depois de love will tear us apart.
fica só esse ruído branco sujo metálico. morto.




O álbum.

Os Meus Livros

[...] talvez eu tenha uma árvore por amante; amante da minha árvore, figura humana que eu projecto nela, cria o amor num dia melhor do que toda a beleza que eu enuncio ao escrever; ofereço-lhe este texto, com o risco de que não me compreenda. "É para si", e concluo "é para nós"; eu entendo de igual modo as árvores, e as letras que atravessam as linhas dos livros; vivemos sob a lei da refulgência da natureza que, à hora crepuscular, explica quais são as proporções entre o homem e o resto do mundo; quantas vezes este pinhal não poderá afirmar que por aqui passou um texto, elaborado entre ele e a sua árvore? [...]

Maria Gabriela Llansol

in A Phala, nº 23 Abr/Mai/Jun 1991

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