[Frida Kahlo, The Broken Column 1944]

escrever é perigoso

um instante, uma falha, um erro breve pelo qual sabemos algumas palavras.
passam-nos pelos dedos as palavras que poderiam ter dito a chave que suspende o mundo.

não escrever.

pela energia das palavras

"As montanhas deslocam-se pela energia das palavras, aparecem pessoas, animais, corolas, sítios negros, e os astros crispados, pela energia das palavras, cria-se o silêncio pela energia das palavras.

Escrever é perigoso."

Herberto Helder, in Photomaton & Vox

nenhuma explicação

se eu soubesse as palavras escrevia aqui as palavras que haveriam de te fazer ficar escrever um pouco mais por favor. nenhum dia é um dia certo para um adeus.

dissolução

do Lat. dissolutione

s. f.,
fenómeno no qual um corpo sólido, líquido ou gasoso, posto em contacto com um líquido (dissolvente) desaparece na massa deste líquido, formando um conjunto mais ou menos homogéneo;
decomposição, desagregação de moléculas;
extinção de contrato ou sociedade;

fig.,
perversão de costumes;
devassidão.



[de dlpo, Texto Editora]

a dissolução do presidente



eleições (presidenciais) antecipadas, já!

motor de busca

(blog perdido)
alguém me ajuda e encontrar o companheiro secreto?

¿Qué vale lo que cante ?

[depois da chuva]
porque se torna insuportável a falta de espaço, saímos para a rua com passos receosos.
as pessoas estão caladas. têm o silêncio das trovoadas desenhado nos olhares.
saímos para a rua com a alma limpa. tão limpa que nos cai das mãos.

como é que se segura uma alma que cai?
"Clouds: forms-contents, becoming, floating worlds, vastness and evanescence, moving permanence. And, before all - and at the very end - a certain relationship with the sky."

in Clouds Magazine


[Kiarostami, Silk Road]

As nuvens, às vezes travam grandes batalhas, às vezes dançam e às vezes não fazem nada.

Lhasa de Sela
Tu me tues, tu me fais du bien.

M. Duras

sanatórios

"- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?"

Herberto Helder, in Os Passos Em Volta

a impossível desesperança

acreditar que há futuro. acreditar que a alegria se há-de sobrepor mais dia menos dia ao cinismo.

filmes que eu gostava de voltar a ver

enquanto houver memória e dias claros debaixo do céu nunca as minhas mãos estarão vazias

já falta pouco



envelhecer

"Quanto mais se envelhece (...) mais se observam os lugares por onde se passa à luz da ideia de que gostaria de ficar por ali ou de que seria extremamente desagradável ficar por lá. Observam-se os lugares como se experimenta um par de sapatos."

Botho Strauss, in Rumor


Ontem, enquanto atravessava o Alentejo, não consegui deixar de pensar como seria agradável ficar por lá.

limitâncias

(Ouvi há tempos o José Mário Branco dizer que a "militância é sempre uma limitância" e não podia estar mais de acordo. Nunca consegui ser militante de coisa nenhuma e durante muito tempo pensei que se tratava de uma incapacidade minha.)

A propósito das cada vez mais frequentes referências à possibilidade de o Bloco de Esquerda poder vir a viabilizar um governo do PS queria escrever (para me comprometer) o seguinte: se isso acontecer nunca mais voto no Bloco.

palavras que aproximam?

não sei que palavras te diria se soubesses a distância exacta entre as minhas mãos escrevendo e o teu corpo dormindo no quarto é noite muito longe já e o cansaço deixa pouca clarividência

nivelar por cima

"You never know what is enough unless you know what is more than enough."

William Blake

SOMBRAS ROSAS SOMBRAS

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

Ingeborg Bachmann

"quem corre por quem não gosta"... ou

"Amam-se aqueles que nos amam, ou então é-se estúpido."

Stig Dagerman, in O Vestido Vermelho

em escuta

One From The Heart



é sem qualquer espécie de dúvida o meu filme de Coppola.
mal posso acreditar que a versão dvd está agora editada e disponível em Portugal.


[...]
“Coppola’s leap into years-ahead
technology is sure and dazzling. ‘It’s arti-
ficial,’ he seems to say. ‘Isn’t it gorgeous.’
Indeed it is... At the same time, the wind
that never quite leaves the soundtrack
says: ‘It may be hot and gaudy here, but
the desert can cover everything over any
day now.’ Impermanence and emptiness
crowd the film.”
[...]
Although I have met more than a
handful of people over the years who
love the film with equal ferocity, we’ve
never had a chance to see if that initial
rapture holds up. Second thoughts? I
gravely doubt it. We’re a doughty band,
and today we finally get to share the
bliss.

Sheila Benson, 2003 Toronto International Film festival
- The Festival Daily

this one is from the heart

o que te pede o blog?

o blog pede-me que escreva. resisto o melhor que posso. porque não sei escrever.
e também porque não devemos escrever se não for importante; se não for suficientemente importante. é a primeira condição. mas nunca sabemos. não se pode saber.

[escreve: é melhor arriscar.
talvez me leias.]

[escreve: o silêncio é a origem de todos os equívocos.]

a I. (que eu pensava que tinha cinquenta anos) diz-me que um blog deveria ser como um livro de bordo. e pergunta-me: o que te pede o blog?

o blog pede-me palavras que aproximem. escrevo?

imagens com velas: o mistério da fé

da forma como uma vela pode desafiar todas as forças do mundo armada apenas com a sua fragilidade.



Ordet, Carl T. Dreyer



Nostalghia (Tarkovsky), cartaz Maistrovski Art

não me obriguem a vir para a rua



[do Barnabé]

patriotismo moderno



cortesia do gato legível (clique em "blog" para ver o blog...)

o que eu gosto em certos filmes

a forma como a memória se desvanece, se diluiu até não restar quase nada. e como depois, quase sem darmos por isso, se vão acumulando fragmentos em volta das últimas ruínas. gosto desta espécie de musgo que cresce à volta do que sobrou da memória do filme, da forma como regressam algumas imagens agora já contaminadas com o pó da nossa própria vida.

palavras palavras palavras

na verdade talvez não queiramos nunca ser compreendidos. como explicar as palavras que escrevemos. tão inexactas.
é à tua incompreensão que me dirijo, à tua ausência; e ao teu silêncio.

é?

MOTOR DE BUSCA

Escrevo. As palavras à procura.

[viii]

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your whish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

e.e. cummings

malogro

"A podridão alastra por todo o Estado e o cheiro doce torna-se uma grande preocupação nos campos. Os homens que sabem enxertar as árvores e tornar fecundas e fortes as sementes, não encontram meios de deixarem a gente esfaimada comer os seus produtos. Homens que criaram novas frutas para o mundo, não sabem criar um sistema pelo qual as tais frutas possam ser comidas. E o malogro paira sobre o Estado como um grande desgosto.
As operações praticadas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços elevados. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carradas de laranjas são atiradas para o chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar frutas, mas agora, não lhes é permitido fazê-lo. Não iam comprar laranjas a vinte cents a dúzia, quando lhes bastava pular do carro e apanhá-las do chão. Homens armados de mangueiras derramam querosene por cima das laranjas e enfurecem-se contra o crime, contra o crime daquela gente que veio à procura das frutas. Um milhão de criaturas com fome, de criaturas que precisam de frutas... e o querosene derramado sobre as faldas das montanhas douradas.
O cheiro a podridão enche o país.
Queimam café como combustível de navios. Queimam o milho para aquecer; o milho dá um lume excelente. Atiram batatas aos rios, colocando guardas ao longo das margens, para evitar que o povo faminto intente pescá-las. Abatem porcos, enterram-nos e deixam a putrescência penetrar na terra.
Há nisto tudo um crime, um crime que ultrapassa o entendimento humano. Há nisto uma tristeza, uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar. Há um malogro que opõe barreiras a todos os nossos êxitos; à terra fértil, às filas rectas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. Crianças atingidas pela pelagra têm de morrer porque a laranja não pode deixar de proporcionar lucros. Os médicos legistas devem declarar nas certidões de óbito: "morte por inanição", porque a comida deve apodrecer, deve, por força, apodrecer.
O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."

John Steinbeck, in As Vinhas da Ira

a respigadora



Não posso ver um filme de Agnés Varda sem que ele esteja sempre e à partida irremediavelmente contaminado com a memória que tenho desse filme que me marcou na adolescência e que se chama Sans Toit ni Loi. Essa memória de uma ruralidade cruel choca violentamente com as minhas recordações de infância feliz no campo. E também sobretudo essa advertência; a de que a liberdade também pode ser perigosa, também pode matar.
Aqui em Os Respigadores e a Respigadora Agnés Varda parte de um quadro de Millet para um trabalho belíssimo acerca do reaproveitamento, das coisas que sobram, do direito.
Do direito de recolher o que sobrou e não foi colhido (lembro-me da alegria com que nós miúdos de 6 ou 7 anos calcorreávamos as vinhas recolhendo as uvas que tinham escapado à vindima).
E do modo como a arte é lixo, sobras, restos. Mas também um filme com uma forte carga política, de crítica à insanidade do consumo desenfreado nas nossas sociedades.
Agnés Varda deixa-me sempre esta quase certeza, intuição, de que o documentário é provavelmente a mais nobre forma de fazer cinema.

Glaneurs de Millet

(ex)citações

o calor é sabido dilata os corpos e tem efeitos "deslinkadores".
nestas situações o melhor será mesmo um banho gelado?

"se um beija-flor entrar pela tua janela"

escutando

da criação das palavras (extraordinárias?)

"Uma palavra é sempre substituível por outra. Se alguma não vos agrada, não vos convém, agarrem noutra, ponham outra no seu lugar. Se toda a gente fizer esse esforço, podemos compreender-nos, e já não há razão para pôr questões e levantar objecções. Não há palavras certas. Também não há metáforas (todas as metáforas são palavras sujas ou a sua causa). Só há palavras inexactas para designar exactamente alguma coisa. Criemos palavras extraordinárias, mas na condição de as utilizarmos de modo vulgar e de fazer existir a entidade que designam com o estatuto do mais comum dos objectos."

Gilles Deleuze, in Diálogos

libertar para a luz

modus vivendi: há blogs assim onde chegamos e nos é oferecida uma vista sobre o vale uma brisa fresca a serenidade a sabedoria. há blogs onde nos vamos deitar na relva fresca e recuperar o ritmo da respiração. para que o mundo se torne mais suportável.

Do Mundo

Se me perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder
Sempre pensei que o esboço contém algo mais que o produto acabado.
Abbas Kiarostami

leva-me



She said:
"I just can't"
I wish she had said:
"My heart won't let me."

Abbas Kiarostami, in Walking With The Wind

com o vento



I arrive alone
I drink alone
I laugh alone
I cry alone
I'm leaving alone.

Abbas Kiarostami, in Walking With The Wind

Paris, Teerão

duas ou três coisas que eu sei sobre ela

enquadramento

O importante é o enquadramento. De qualquer coisa. Quando tiro uma fotografia, pergunto-me se irei revelá-la ou não. Normalmente hesito, mas depois acabo por fazê-lo de qualquer modo. No instante preciso em que ponho o instantâneo numa moldura com um passe-partout, de repente ele torna-se mais atractivo, e quando olho para ele através do vidro da moldura acho-o perfeitamente plausível. Portanto, creio que a ideia de enquadrar alguma coisa, dá-se-lhe a dimensão da importância que provém do facto de a ter seleccionado. No momento em que se selecciona algo, confere-se-lhe um valor acrescentado que o separa de toda e qualquer outra coisa.

Abbas Kiarostami




acredito no enquadramento como essência do cinema. esse pedaço de imagem que se retira de um lugar e se junta a outro que não lhe era vizinho. o enquadramento está antes da descontinuidade da montagem. está antes do próprio movimento das imagens. é mais antigo.
e é talvez a primeira e decisiva escolha que se faz.

cerejas

+ livro seda azul = Kiarostami.

...
as naves que eu construo
não são feitas para navegar
aguentam a violência de um beijo
mas nunca a de um mar


Rui Reininho, Sete Naves
um filme do Hal Hartley; um qualquer
ficam mais pesadas as mãos em certas noites como esta não devia escrever as palavras no limite da confidência confissão inconfidência também talvez à procura sempre à procura das palavras da palavra certa que diga esta solidão completamente improvável inverosímil imaginária morre-se sempre um pouco enquanto se espera espero que acordes espero que passe

Romance Sonámbulo

A Gloria Giner y Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.

Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los puertos de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser, con
las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
¡dejadme subir!, dejadme
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna por
donde retumba el agua.

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde cama, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montana.


Federico García Lorca, Romancero Gitano
as mãos à procura na cama vazia.
encontraram apenas ruínas, da memória das noites em que te sentavas na cama e lias para mim poemas gitanos.

filmes que eu gostava de (voltar a) ver



filmes para os quais o desejo terá inventado uma memória.
e não posso por isso ter já a certeza de ter visto estas imagens.

mas queria muito voltar a ver este filme.

em escuta

trabalhar cansa

quando era muito jovem acreditava na redenção pelo trabalho.
havia associada ao trabalho uma ideia de pureza, de honestidade.
mais tarde acrescentei ainda a ideia de liberdade; o trabalho que liberta.

mas agora sobra-me sempre este cansaço. esta falta de liberdade.

agora escrevo apenas: o trabalho mata.

uma lei que obrigasse à colocação de avisos: "o governo adverte que o trabalho prejudica gravemente a sua capacidade de viver como um indivíduo livre e são".

os cartazes do bloco cheiram mal da boca

Nunca gostei da imagem gráfica do bloco. É uma herança do PSR e do Combate que se dispensava. Nunca entendi essa espécie de preconceito contra a beleza. Porque é que a esquerda não pode ser sedutora, leve, flexível? Porque é que tem que ser tão séria e pesada? Feia?

Mas agora é mais grave do que isso; é lixo comunicacional. E uma mensagem com a qual estou em completo desacordo. Não gosto desta faceta caceteira. Nem do populismo barato. O melhor serviço que podemos prestar aos maus políticos é dizer que todos os políticos são maus. Além disso, este poderia muito bem ser o cartaz da Nova Democracia (bastava mudar as cores).


Acho que desta vez vou dar um cartão amarelo ao bloco.

Eles são feios, eles perdem votos.

só eu sei porque fico em casa

talvez


o rock in rio fosse quase suportável...

AFTER LONG SILENCE

Speech after long silence; it is right,
All other lovers being estranged or dead,
Unfriendly lamplight hid under its shade,
The curtains drawn upon unfriendly night,
That we descant and yet descant
Upon the supreme theme of Art and Song:
Bodily decrepitude is wisdom; young
We loved each other and were ignorant.

W.B.Yeats, Words For Music Perhaps (1931)

WHEN YOU ARE OLD

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

W.B.Yeats, The Rose (1893)

Tudo é sagrado!

Pasolini

Há coisas que só se vivem; ou então, se insistimos em as dizer, é necessário fazê-lo em poesia.

Pier Paolo Pasolini

Pasolini

A poesia é o que resta quando se esquece tudo da história e é tudo o que passa do imaginário para a ordem simbólica da palavra humana. Restituir à história o que não lhe pertence e ao homem o que ainda não é do homem (...)

Jean Duflot,
in Pier Paolo Pasolini - As Últimas Palavras de Um Ímpio


[Em Junho, na Costa do Castelo Filmes: Decameron, Contos de Canterbury, Salo, Mil e Uma Noites.]

dicionário do diabo

é claro que quem escreve tem o direito de fazer o que entender com os seus textos, mas não deixa de ser de certa forma uma traição o modo como o Pedro Mexia encerra (e apaga) o seu Dicionário. Assim, sem aviso, pela calada da noite.

filmes que eu gostava de voltar a ver

sleepless

as mais belas insónias da blogosfera são aqui.

ainda a memória de alice nas cidades

polaroid. a américa. as viagens. o discurso sobre as imagens.
um aparelho de televisão num quarto de hotel.

o diálogo no avião. traum?

estranhos critérios, os do esquecimento. do abandono.

e sobretudo esta certeza inabalável de ser este o filme mais importante do Wenders.
(importante para quem?)

POÉTICA

Estes quantos traços que se parecem com a sombra
(às mãos devemos também a solidão mais implacável)
talvez nem mereçam essa forma de lentidão: a leitura
escrevi-os num jardim onde patos grasnam ao frio
e folhas se despenham atrás do vento

Sobre a terra sem nenhum rumor
um verso é sempre tão pouco
em redor do que se pode observar
tenho medo pois de repente
a tua respiração ficou demasiado perto
da essência instável, dissonante

E isso é tudo o que nos resta

José Tolentino Mendonça, in De Igual para Igual
Assírio & Alvim, 2001

o sangue

querias falar dessa espécie de sangue que são as palavras circulando.

e depois ficaste a pensar que as imagens também são. todas as coisas que partilhamos com os outros. com os amigos.

sangue. família.
os amigos são a família que escolhemos. outro sangue do nosso sangue.

como no filme do pedro costa.

nómada

[...] os nómadas, em sentido geográfico, não são migrantes nem viajantes mas, pelo contrário, aqueles que não se mexem, aqueles que se ligam à estepe, imóveis de grande passo, seguindo uma linha de fuga no mesmo sítio [...]
Gilles Deleuze, Diálogos

eu, que nunca vivi muito tempo afastado mais do que dez quilómetros do local onde nasci, sempre me senti um nómada.
estranho isto de encontrar as palavras que nos explicam o que sempre soubémos, sem o saber.

a imobilidade permite a máxima velocidade.




os triângulos

É preciso multiplicar os lados, quebrar todo e qualquer círculo em benefício dos polígonos.

Gilles Deleuze, Diálogos

alice nas cidades

o modo como se adivinham aqui os próximos filmes de Wenders. sobretudo esse fabuloso Paris Texas.

alice nas cidades - fragmento # 1

o jogo das palavras. traum. traum não serve; só coisas que existem.

filmes que eu gostava de voltar a ver



proposta de exercício: escrever sobre as ruínas da memória de um filme.
Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

Adília Lopes, in Florbela Espanca Espanca
Escrever bem
ou menos bem
não importa
importa
a porta
(a cona
o pão
para a boca)
o resto
são cantigas
de amigo

Adília Lopes, in Sete Rios Entre Campos

I'll drink to that!

filmes que eu gostava de voltar a ver


sugestão para a galeria da Inês

simples?

ensaio, tentativa, erro. traçar uma linha de fuga algures. dualidades.
como escrever a palavra, essa mot juste que abre a linha de fuga (e que nos haveria de libertar da necessidade)?

América

Michael Moore: "Americans regardless of their political stripe ... don't like to be told they can't see something."

Emily Watson, no papel da protagonista, excede-se de tal forma que a expressão "estado de graça" pecaria por tibieza. "Breaking the Waves" é ao mesmo tempo manifesto e tributo à liberdade de filmar, e raras vezes se terá visto prova tão eloquente de que a premeditação não é, nem pode ser, inimiga da vontade de criar. Cada plano desta obra-prima arrebatadora fala-nos de cinema, e traz consigo a sua ideia de mundo.
Alexandre Andrade, 1bsk, Janeiro 2004

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