a blogosfera é melhor que o país

O aborto é uma questão pessoal, íntima e que pertence ao domínio da consciência de cada um. Tenho dificuldade em aceitar que um estado possa legislar neste território.
Independentemente da minha posição pessoal acerca desta questão, sou inequívocamente a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez e da obrigação por parte do estado em garantir condições seguras para a sua prática.
O que mais me choca é a indiferença cínica e a hipocrisia de quem quer proíbe atirando para o sofrimento e para a morte milhares de mulheres todos os dias. Esses pseudo-defensores da vida não têm qualquer problema de consciência em mandar a polícia perseguir mulheres fragilizadas que acabaram de fazer um aborto. É uma atitude miserável que me enoja e revolta.

[Leio numerosos posts acerca deste assunto na blogosfera. Achei particularmente acutilante o desabafo em Controversa Maresia - como não nos identificarmos com aquela revolta?
Ler também uma abordagem (ainda) mais completa (apesar de eu não subescrever tudo que aí se diz) em Triciclo Feliz.
Ou o depoimento mais pessoal em Respirar o Mesmo Ar.
A blogosfera é melhor que o país.]

vergonha patriótica

Eu, que não sou nacionalista, dou por mim tantas vezes com vergonha do meu país.
Sinto vergonha quando um presidente republicano e socialista insulta a democracia negando ao povo o direito de escolher o seu governo, sinto vergonha quando o procurador geral da república não se demite e se comporta sem dignidade, sinto vergonha quando um governo medieval e prepotente impede o barco da WOW de entrar em portos portugueses, sinto vergonha pela incompetência do ministério da educação no caso das listas de colocação de professores, sinto vergonha das dúvidas de alguns portugueses relativamente ao fantástico desempenho de Francis Obikwelu em Atenas...

as pessoas extraordinárias

Conheço muitas pessoas que se esforçam por construir um percurso de vida extraordinário. Mas à medida que o tempo avança apercebo-me que um percurso extraordinário não produz uma pessoa extraordinária. As pessoas extraordinárias são raras e encontramo-las quase por acaso quase sempre na simplicidade de um fim de tarde chuvoso. Ou então sentadas num banco perto de casa, ao sol. As pessoas extraordinárias não tem nada de extraordinário, porque não precisam.

[sem data; podia ser um dia qualquer]


Chanson,
Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle
Et toi qui me dis tout
Ô, toi,
Que nous dansions ensemble
Toi qui me parlais d'elle
D'elle qui te chantait
Toi qui me parlais d'elle
De son nom oublié
De son corps, de mon corps
De cet amour là
De cet amour mort
Chanson,
De ma terre lointaine
Toi qui parleras d'elle
Maintenant disparue
Toi qui me parles d'elle
De son corps effacé
De ses nuits, de nos nuits
De ce désir là
De ce désir mort
Chanson,
Toi qui ne veux rien dire
Toi qui me parles d'elle
Et toi qui me dit tout
Et toi qui me dit tout

[India Song, Jeanne Moreau/Carlos d'Alessio]

save as draft - II

e de a poesia ser essa coisa uma marca comum sobre a pele.
o respeito e o amor, mesmo pela poesia, nunca se confundem. nem se excluem.

e não existe unidade de medida. são coisas demasiado absolutas para se permitirem uma medição.

da liberdade não falo. estamos em litígio.
deixo-te apenas a advertência dos perigos: sobretudo o da ilusão.

[original draft: 10/08/2004]

save as draft - I

vens para aqui sem a armadura das teorias escrever coisas e não devias sabes que não é sensato expor fragilidades não sabes se está afiada a tua espada apenas a tua sensibilidade a tua espada é a tua mão nua

é perigoso viajar sem mapas?


[original draft: 10/08/2004]

melancolia

(...)
Há sempre um Verão a que os tristes não sobrevivem.


Sofia, in A Natureza do Mal

o 3º quarto do dia

(...) Para quem, como os antigos, divide tudo em 4, o mundo tem 4 partes, e o ano 4 estações, das quais a terceira, o Outono, está ligado ao terceiro temperamento, o melancólico, e ao terceiro quarto do dia, entre as 3 da tarde e as 9 da noite.
O terceiro quarto do dia é a luz crespuscular, oblíqua, que ilumina as gentes a caminho de casa, depois do trabalho. Antecede e anuncia a noite, que pertence ao sono, ao submundo e à inanidade. A noite é o lugar do não-visível, do mundo ausente, onde a morte (e o diabo) desfazem os laços com que o homem, durante o dia, foi cosendo o seu entendimento. (...)
Esta luz é a luz da lucidez, de quem já vê as sombras na claridade do dia, para quem toda a representação é também uma representação dos seus códigos.

in Lusitania, vol. 1 n.2 (Inverno 1988)
nada como a tranquilidade da chuva
para nos deixar os dias limpos
outra vez

senta-te respira olha
outra vez

"How many times have you woken up and prayed for the rain?"

[The Stranglers]
Quem irá transpor o mar em vez de nós? Esta espécie de euforia
entre a memória a água ou o primeiro objecto que
ignorando tudo o mais
traçado sobre as mãos um pouco roídas:

O mar em vez de nós.


João Miguel Fernandes Jorge

cenas da vida conjugal

- humm...
- desculpa; abri sem querer...
- não faz mal.
- não foi bem sem querer; é que...
- tudo bem.
- ...(?)
- que fixe!...
- apetecia-me mesmo ver esse filme.
- a mim também.

advertência

"A melancolia e a tristeza são já o começo da dúvida; a dúvida é o começo do desespero; o desespero é o começo cruel dos diferentes graus da maldade."

Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont - Poesias

awareness


Darfur

um post não me vai fazer sentir melhor. não me quero sentir melhor. que ninguém se sinta melhor só porque não se calou.

no deserto destes dias não podemos saber a distância entre a indiferença e uma meia dúzia de palavras.

porque escrevemos, então?


o que me perturba é ainda o modo como o planeta se está nas tintas para nós.
as árvores vão continuar a dar flor e fruto indiferentes às nossas tragédias.
e a erva vai crescer e alimentar-se dos animais que morreram.


"Antigamente, eu apenas conhecia fadigas amedrontadoras.

Antigamente, quando?

(...)

Ou saltitarão os pintassilgos efectivamente para a águia, lá no alto - que as pessoas, como desfastio, desejam ver em voo picado?"

Peter Handke, Para Uma Abordagem da Fadiga

em busca do dia conseguido

"Todos os que conheço viveram já um dia conseguido, em regra até muitos. A uns bastava que o dia não se arrastasse. Outros porventura dizem: "Estar na ponte, sob o céu. De manhã ter rido com as crianças, olhar. Nada de especial, olhar traz felicidade." E, para um terceiro ainda, significara já a rua de subúrbio, que ele tinha acabado de atravessar, com os pingos de chuva que, lá fora, pendiam da chave gigante da serralharia, com o fervilhar do bambu no jardim fronteiro da casa, com a trindade de cascas de tangerina, uvas, batatas descascadas cá fora sobre o parapeito da cozinha, com o táxi que estava de novo estacionado à porta de casa do motorista um tal "dia conseguido". E, para aquele padre cuja palavra preferida era "nostalgia" um dia podia ser considerado conseguido no momento em que ele ouvia uma voz amável. E, após uma hora em que nada acontecera, exceptuando o facto de um pássaro ter rodopiado em torno de um ramo, de uma bola branca estar aninhada num arbusto e de alunos estarem sentados ao sol na plataforma de comboios, não tinha ele próprio também dado repetidamente consigo a pensar: "Tudo isto constituiu agora já o dia inteiro"? E não lhe acontecia frequentemente, quando à noite evocava - sim, era de uma espécie de evocação que se trtava - o dia findo, ocorrenrem-lhe, em regra, como nomes para ele as coisas ou os lugares somente de um instante: "foi o dia em que o homem com o carrinho de bebé deu a curva por cima dos montes de folhas", "foi o dia em que as notas do jardineiro estavam misturadas com palhas e folhas", "foi o dia do café vazio, onde a luz se alterou com o zunido proveniente do balcão frigorífico..." Então porque não se contentar com cada hora conseguida? Porque não simplificar, elevando o instante a dia?"

Peter Handke, in Ensaio Sobre o Dia Conseguido

razões para não escrever

não gosto do que escreve aqui aquele que escreve quando se aproxima demasiado de mim porque é perigoso e deixa uma espécie de rumor branco de flores morrendo devagar não sei explicar muito bem isto das palavras de não saber dizer nunca se aprende mas também não se pode escrever quando a distância cresce e transforma as palavras em coisas falsas ou pior desonestas sobretudo porque existe sempre o risco que me leias quando estamos tristes ou cansados e menos disponíveis para o mundo os outros as palavras


sent by//outro

superpoppe (limão - vazio formal)

apeio-me desse navio que não navega e desço do cais pela calçada em direcção à água e encontro alguns amigos quase perdidos que me levam à porta de casa da insónia copos para lavar com superpoppe detergente limão antibacteriano não me deixes sair da cama para escrever abraça-me levanto-me e escrevo à espera que o sono se liberte dos comprimidos estou tão triste que é feito das minhas razões/condições objectivas para a felicidade? é tudo tão frágil desculpem-me mas os poemas não se misturam é uma questão de respeito pela poesia e porque depois podem demorar demasiado tempo a sair da roupa as nódoas dos poemas mal-ditos gosto mais de trazer para casa os poemas nas mãos inteiros limpos entre nós e as palavras há ainda palavras palavras palavras

memória do poema

há palavras, livros inteiros, assim: perturbam a distância que nos separa do mundo.
[essa espessura tão instável, frágil]

pegas no livro, deitas-te devagar na cama e começas a ler.

[ah! o poder das tuas mãos sobre a página]

(nota para não escrever)

"Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. (...)"

Herberto Helder, in Photomaton & Vox

ce qu'il y a avant


"La salle noire c'est ce qu'il y a avant le film, l'image. Et le noir dont je parle dans La Vie Matérielle, c'est celui qui est avant l'écriture. On ne sait jamais exactement ce qu'on va trouver après. On écrit, on écrit encore, puis on relit, et il faut jetter parce que n'est pas ça qui etait dans le noir. On s'est trompé. Alors on recommence.
  
Marguerite Duras, Cahiers du Cinéma, nº 426, Dec. 89


sou Ulisses e fico em casa

"Ele pensou: Sou Ulisses e fico em casa. Tive de suportar muitas tribulações. Desta vez foi Penélope que podia contar com a minha lealdade, enquanto viajava lá por fora em busca dos vestígios da sua juventude perdida. E eu tinha de me defender de pessoas enfadonhas que a minha solidão atraía em grande número, como se fosse uma riqueza ou um oráculo."
 
Botho Strauss, in Fragmentos da Incompreensão



"Serias capaz de deixar tudo e recomeçar uma nova vida?
Escolher uma única coisa e ser-lhe fiel?

Conseguir transformá-la na razão da tua vida?
Uma coisa que englobe tudo, porque é a tua fidelidade que a torna infinita. Serias capaz?"

 
in 8 1/2, Federico Fellini



[Frida Kahlo, The Broken Column 1944]

escrever é perigoso

um instante, uma falha, um erro breve pelo qual sabemos algumas palavras.
passam-nos pelos dedos as palavras que poderiam ter dito a chave que suspende o mundo.

não escrever.

pela energia das palavras

"As montanhas deslocam-se pela energia das palavras, aparecem pessoas, animais, corolas, sítios negros, e os astros crispados, pela energia das palavras, cria-se o silêncio pela energia das palavras.

Escrever é perigoso."

Herberto Helder, in Photomaton & Vox

nenhuma explicação

se eu soubesse as palavras escrevia aqui as palavras que haveriam de te fazer ficar escrever um pouco mais por favor. nenhum dia é um dia certo para um adeus.

dissolução

do Lat. dissolutione

s. f.,
fenómeno no qual um corpo sólido, líquido ou gasoso, posto em contacto com um líquido (dissolvente) desaparece na massa deste líquido, formando um conjunto mais ou menos homogéneo;
decomposição, desagregação de moléculas;
extinção de contrato ou sociedade;

fig.,
perversão de costumes;
devassidão.



[de dlpo, Texto Editora]

a dissolução do presidente



eleições (presidenciais) antecipadas, já!

motor de busca

(blog perdido)
alguém me ajuda e encontrar o companheiro secreto?

¿Qué vale lo que cante ?

[depois da chuva]
porque se torna insuportável a falta de espaço, saímos para a rua com passos receosos.
as pessoas estão caladas. têm o silêncio das trovoadas desenhado nos olhares.
saímos para a rua com a alma limpa. tão limpa que nos cai das mãos.

como é que se segura uma alma que cai?
"Clouds: forms-contents, becoming, floating worlds, vastness and evanescence, moving permanence. And, before all - and at the very end - a certain relationship with the sky."

in Clouds Magazine


[Kiarostami, Silk Road]

As nuvens, às vezes travam grandes batalhas, às vezes dançam e às vezes não fazem nada.

Lhasa de Sela
Tu me tues, tu me fais du bien.

M. Duras

sanatórios

"- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?"

Herberto Helder, in Os Passos Em Volta

a impossível desesperança

acreditar que há futuro. acreditar que a alegria se há-de sobrepor mais dia menos dia ao cinismo.

filmes que eu gostava de voltar a ver

enquanto houver memória e dias claros debaixo do céu nunca as minhas mãos estarão vazias

já falta pouco



envelhecer

"Quanto mais se envelhece (...) mais se observam os lugares por onde se passa à luz da ideia de que gostaria de ficar por ali ou de que seria extremamente desagradável ficar por lá. Observam-se os lugares como se experimenta um par de sapatos."

Botho Strauss, in Rumor


Ontem, enquanto atravessava o Alentejo, não consegui deixar de pensar como seria agradável ficar por lá.

limitâncias

(Ouvi há tempos o José Mário Branco dizer que a "militância é sempre uma limitância" e não podia estar mais de acordo. Nunca consegui ser militante de coisa nenhuma e durante muito tempo pensei que se tratava de uma incapacidade minha.)

A propósito das cada vez mais frequentes referências à possibilidade de o Bloco de Esquerda poder vir a viabilizar um governo do PS queria escrever (para me comprometer) o seguinte: se isso acontecer nunca mais voto no Bloco.

palavras que aproximam?

não sei que palavras te diria se soubesses a distância exacta entre as minhas mãos escrevendo e o teu corpo dormindo no quarto é noite muito longe já e o cansaço deixa pouca clarividência

nivelar por cima

"You never know what is enough unless you know what is more than enough."

William Blake

SOMBRAS ROSAS SOMBRAS

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

Ingeborg Bachmann

"quem corre por quem não gosta"... ou

"Amam-se aqueles que nos amam, ou então é-se estúpido."

Stig Dagerman, in O Vestido Vermelho

em escuta

One From The Heart



é sem qualquer espécie de dúvida o meu filme de Coppola.
mal posso acreditar que a versão dvd está agora editada e disponível em Portugal.


[...]
“Coppola’s leap into years-ahead
technology is sure and dazzling. ‘It’s arti-
ficial,’ he seems to say. ‘Isn’t it gorgeous.’
Indeed it is... At the same time, the wind
that never quite leaves the soundtrack
says: ‘It may be hot and gaudy here, but
the desert can cover everything over any
day now.’ Impermanence and emptiness
crowd the film.”
[...]
Although I have met more than a
handful of people over the years who
love the film with equal ferocity, we’ve
never had a chance to see if that initial
rapture holds up. Second thoughts? I
gravely doubt it. We’re a doughty band,
and today we finally get to share the
bliss.

Sheila Benson, 2003 Toronto International Film festival
- The Festival Daily

this one is from the heart

o que te pede o blog?

o blog pede-me que escreva. resisto o melhor que posso. porque não sei escrever.
e também porque não devemos escrever se não for importante; se não for suficientemente importante. é a primeira condição. mas nunca sabemos. não se pode saber.

[escreve: é melhor arriscar.
talvez me leias.]

[escreve: o silêncio é a origem de todos os equívocos.]

a I. (que eu pensava que tinha cinquenta anos) diz-me que um blog deveria ser como um livro de bordo. e pergunta-me: o que te pede o blog?

o blog pede-me palavras que aproximem. escrevo?

imagens com velas: o mistério da fé

da forma como uma vela pode desafiar todas as forças do mundo armada apenas com a sua fragilidade.



Ordet, Carl T. Dreyer



Nostalghia (Tarkovsky), cartaz Maistrovski Art

não me obriguem a vir para a rua



[do Barnabé]

patriotismo moderno



cortesia do gato legível (clique em "blog" para ver o blog...)

o que eu gosto em certos filmes

a forma como a memória se desvanece, se diluiu até não restar quase nada. e como depois, quase sem darmos por isso, se vão acumulando fragmentos em volta das últimas ruínas. gosto desta espécie de musgo que cresce à volta do que sobrou da memória do filme, da forma como regressam algumas imagens agora já contaminadas com o pó da nossa própria vida.

palavras palavras palavras

na verdade talvez não queiramos nunca ser compreendidos. como explicar as palavras que escrevemos. tão inexactas.
é à tua incompreensão que me dirijo, à tua ausência; e ao teu silêncio.

é?

MOTOR DE BUSCA

Escrevo. As palavras à procura.

[viii]

somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your whish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

e.e. cummings

malogro

"A podridão alastra por todo o Estado e o cheiro doce torna-se uma grande preocupação nos campos. Os homens que sabem enxertar as árvores e tornar fecundas e fortes as sementes, não encontram meios de deixarem a gente esfaimada comer os seus produtos. Homens que criaram novas frutas para o mundo, não sabem criar um sistema pelo qual as tais frutas possam ser comidas. E o malogro paira sobre o Estado como um grande desgosto.
As operações praticadas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços elevados. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carradas de laranjas são atiradas para o chão. O pessoal vinha de milhas de distância para buscar frutas, mas agora, não lhes é permitido fazê-lo. Não iam comprar laranjas a vinte cents a dúzia, quando lhes bastava pular do carro e apanhá-las do chão. Homens armados de mangueiras derramam querosene por cima das laranjas e enfurecem-se contra o crime, contra o crime daquela gente que veio à procura das frutas. Um milhão de criaturas com fome, de criaturas que precisam de frutas... e o querosene derramado sobre as faldas das montanhas douradas.
O cheiro a podridão enche o país.
Queimam café como combustível de navios. Queimam o milho para aquecer; o milho dá um lume excelente. Atiram batatas aos rios, colocando guardas ao longo das margens, para evitar que o povo faminto intente pescá-las. Abatem porcos, enterram-nos e deixam a putrescência penetrar na terra.
Há nisto tudo um crime, um crime que ultrapassa o entendimento humano. Há nisto uma tristeza, uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar. Há um malogro que opõe barreiras a todos os nossos êxitos; à terra fértil, às filas rectas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. Crianças atingidas pela pelagra têm de morrer porque a laranja não pode deixar de proporcionar lucros. Os médicos legistas devem declarar nas certidões de óbito: "morte por inanição", porque a comida deve apodrecer, deve, por força, apodrecer.
O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros ruidosos apanhar as laranjas caídas no chão, mas as laranjas estão untadas de querosene. E ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam montanhas de laranjas, rolando num lodaçal putrefacto. Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."

John Steinbeck, in As Vinhas da Ira

a respigadora



Não posso ver um filme de Agnés Varda sem que ele esteja sempre e à partida irremediavelmente contaminado com a memória que tenho desse filme que me marcou na adolescência e que se chama Sans Toit ni Loi. Essa memória de uma ruralidade cruel choca violentamente com as minhas recordações de infância feliz no campo. E também sobretudo essa advertência; a de que a liberdade também pode ser perigosa, também pode matar.
Aqui em Os Respigadores e a Respigadora Agnés Varda parte de um quadro de Millet para um trabalho belíssimo acerca do reaproveitamento, das coisas que sobram, do direito.
Do direito de recolher o que sobrou e não foi colhido (lembro-me da alegria com que nós miúdos de 6 ou 7 anos calcorreávamos as vinhas recolhendo as uvas que tinham escapado à vindima).
E do modo como a arte é lixo, sobras, restos. Mas também um filme com uma forte carga política, de crítica à insanidade do consumo desenfreado nas nossas sociedades.
Agnés Varda deixa-me sempre esta quase certeza, intuição, de que o documentário é provavelmente a mais nobre forma de fazer cinema.

Glaneurs de Millet

(ex)citações

o calor é sabido dilata os corpos e tem efeitos "deslinkadores".
nestas situações o melhor será mesmo um banho gelado?

"se um beija-flor entrar pela tua janela"

escutando

da criação das palavras (extraordinárias?)

"Uma palavra é sempre substituível por outra. Se alguma não vos agrada, não vos convém, agarrem noutra, ponham outra no seu lugar. Se toda a gente fizer esse esforço, podemos compreender-nos, e já não há razão para pôr questões e levantar objecções. Não há palavras certas. Também não há metáforas (todas as metáforas são palavras sujas ou a sua causa). Só há palavras inexactas para designar exactamente alguma coisa. Criemos palavras extraordinárias, mas na condição de as utilizarmos de modo vulgar e de fazer existir a entidade que designam com o estatuto do mais comum dos objectos."

Gilles Deleuze, in Diálogos

libertar para a luz

modus vivendi: há blogs assim onde chegamos e nos é oferecida uma vista sobre o vale uma brisa fresca a serenidade a sabedoria. há blogs onde nos vamos deitar na relva fresca e recuperar o ritmo da respiração. para que o mundo se torne mais suportável.

Do Mundo

Se me perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder
Sempre pensei que o esboço contém algo mais que o produto acabado.
Abbas Kiarostami

leva-me



She said:
"I just can't"
I wish she had said:
"My heart won't let me."

Abbas Kiarostami, in Walking With The Wind

com o vento



I arrive alone
I drink alone
I laugh alone
I cry alone
I'm leaving alone.

Abbas Kiarostami, in Walking With The Wind

Paris, Teerão

duas ou três coisas que eu sei sobre ela

enquadramento

O importante é o enquadramento. De qualquer coisa. Quando tiro uma fotografia, pergunto-me se irei revelá-la ou não. Normalmente hesito, mas depois acabo por fazê-lo de qualquer modo. No instante preciso em que ponho o instantâneo numa moldura com um passe-partout, de repente ele torna-se mais atractivo, e quando olho para ele através do vidro da moldura acho-o perfeitamente plausível. Portanto, creio que a ideia de enquadrar alguma coisa, dá-se-lhe a dimensão da importância que provém do facto de a ter seleccionado. No momento em que se selecciona algo, confere-se-lhe um valor acrescentado que o separa de toda e qualquer outra coisa.

Abbas Kiarostami




acredito no enquadramento como essência do cinema. esse pedaço de imagem que se retira de um lugar e se junta a outro que não lhe era vizinho. o enquadramento está antes da descontinuidade da montagem. está antes do próprio movimento das imagens. é mais antigo.
e é talvez a primeira e decisiva escolha que se faz.

cerejas

+ livro seda azul = Kiarostami.

...
as naves que eu construo
não são feitas para navegar
aguentam a violência de um beijo
mas nunca a de um mar


Rui Reininho, Sete Naves

Arquivo